poesia

Miro o Universo que me mira

Portugues/English

Existem noites que são como vitrais

Um amontoado de pedaçinhos de vidros coloridos

Um quebra cabeça de peças que nem sempre se encaixam

Um mar, onde imagens do subconsciente flutuam

Emergem fotos aqui e acolá,

Misturadas à paisagem do dia anterior.

Um baile de miragens

Onde bailarinos de outros mundos saltam

Trazendo consigo suas mensagens

E então, as ondas batem com força contra as rochas

Formando imagens caleidoscópicas

E, quando despertamos o silencio é tão urgente.

No silencio colhemos todas estas peças que chegaram até a areia

Até que elas façam algum sentido.

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Some nights are like stained glass

A heap of colorful glass pieces

A puzzle of pieces that do not always fit

A sea, where images of the subconscious float

Pictures emerge here and there

Mixed to the  landscape from the day before

A dance of mirages

Where dancers from other worlds jump

Bringing their messages to you.

And then, the waves hit hard against the rocks,

Forming kaleidoscopic images

And when we wake up, the silence is so urgent.

In the silence we harvest all these pieces that reached the sand

Until they make some sense.

 

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Andre Chénier, Bregenz, Austria
poesia

Le rencontre des eaux

Acendi uma vela e a cravei sobre a neve

Esperei por longas noites e muitas vidas

E cuidei para que a chama queimasse

Cantei sortilégios antigos

Conjurei deuses inventados e malditos

Até que a neve se transmutou em primavera

E voce , tal qual um rio

Fluiu até meus lábios,

Inundou minha garganta

E fiz do teu gosto em mim

Nossa eternidade.

Em tuas águas escuras eu caminho.

pes
feet

 

 

 

sobre a vida

A porta

 

Portuguese/English

“Traga todo seu Eu para sua porta.

Trazendo apenas uma parte,

Voce não trouxe nada.”

(Hakim Sanai)

Há tempos venho me questionando sobre os verdadeiros laços e de que eles são formados? Quando eu decidi que vinha morar na Nova Zelandia, longe de todos que eu conhecia, eu sabia que boa parte das minhas amizades terminaria no momento que o avião partisse. E mesmo podendo me conectar via mídias sociais, eu sei que alguns laços acabarão com o tempo.

Então, sobre aqueles laços que não se rompem nunca ou pelo menos não tão facilmente, de que são feitos? Creio que são feitos quando a essencia verdadeira de uma pessoa se conecta com a essencia verdadeira de outra pessoa. Quando olhamos nos olhos do outros, ainda que virtualmente, mas sem mascaras. Não precisamos vestir uma roupa que não é nossa, fingir comportamentos que não são nossos, estamos desnudos. Neste momento nos conectamos com a verdadeira Beleza e é impossivel não se apaixonar quando isto acontece. Nossa essência é algo como o Divino em nós, pois traz consigo o que há de mais verdadeiro e belo. E quando voce se conecta a verdadeira essência de outra pessoa, não importa o que ela veste, o carro que ela dirige, ou mesmo ela não ter carro, ou sua profissão, ou se tem dias ruins, ou se ela passa um longo tempo em silêncio, ou mesmo longe. Sempre haverá o respeito, a compreensão. Estes laços são difíceis de romper. São aquelas pessoas que mesmo passados anos quando se encontram é como se nunca tivessem se separado, e talvez nunca o fizeram de fato, os laços verdadeiros são como teias invisíveis.

E aí vem outro questionamento. Por que usamos tantas máscaras? Por que nos privamos de experiências tão gratificantes? O que nos machucou tanto a ponto de perdemos uma vida construindo muros ao invés de criar laços? Cada um de nós tem um profundo instinto para esconder sua essencia. Nos sentimos protegidos quando escondemos. Não ser visto é seguro. Este é o propósito do Ego; criamos uma máscara social por detrás da qual nos escondemos. Nós reunimos nossas experiências num conjunto de narrativas e apresentamos esta criaçao de patchwork ao mundo, dizendo: “Este sou eu. Não procure mais nada”. A formação e a modificação desta mascára do ego torna-se o principal trabalho da maioria de nossas vidas, e também esquecemos facilmente que não somos esta máscara, que , de fato, somos muito maiores e menos facilmente definidos. O ato de se esconder torna-se institucionalizado na consciência.

Por esta razão precisamos descobrir por que escondemos e se queremos continuar escondendo. Muitas vezes a manutençao desta máscara é tão dolorosa que não vale a pena. Muitas vezes a manutenção das máscaras se torna emocionalmente tóxica. A plenitude do que somos é muito maior quequalquer história pura onde queremos empacotar tudo. Não podemos truncar partes de nós mesmos para forçar um encaixe confortável na narrativa que queremos dizer a nós mesmos. Devemos morar na nossa totalidade. Devemos reivindicar nossa história, todos nossos sentimentos e pensamentos, o doloroso e o celestial juntos.

E então, vamos até o limiar. Hesitantes, nus, vulneráveis até esta porta da nosso verdadeiro Eu. É quando a magia acontece. A coleção grande e pesada de vitórias e feridas que trouxemos conosco vem se concentrar pela primeira vez e temos uma visão de nós mesmos, todo nosso ser, vivo intenso, integral dentro do universo imenso vivo. O que nós hesitamos ver em nós mesmo se torna uma imagem de Beleza e, sim, a  felicidade majestosa se derrete e se mistura com a majestosa beleza ao nosso redor.

Todos nós desejamos este encontro precisamente para curar a profunda dor da separação. Se chegarmos com menos de todos seres, se chegarmos apenas com fragmentos de nosso ser, como podemos encontrar a cura?

Traga todo seu Eu para sua porta.

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“Bring all of yourself to his door:

bring only a part,

and you’ve brought nothing at all”

(Hakin Sanai)

I have been questioning myself for a long time about the true bonds and what they are made of ? When I decided to live in New Zealand, far from every friend/family that i had, I knew that most of my friendships would end the moment the plane left. And even though I can connect via social media, I know that some bonds will end in a few time.

So, about those bonds that never break, or at least not so easily, what are they made of ? I believe they are made when the true essence of a person connects with the true essence of another person. When we look into the eyes of others, although virtually, but without masks. We do not have to wear clothes that are not ours, pretend to act with behaviors that are not ours, we are naked. At this moment we connect with the true Beauty and it is impossible not to fall in love when this happens. Our essence is something like the Divine in us, because it brings with it the most true and beautiful that exists. And when you connect the true essence of another person, no matter what they wear, the car they drive, or even they do not have a car, or their profession, or if they have bad days, or if they  spend a long time in Silence, or even far away. There always will be respect, understanding. These kind of bonds are difficult to break. They are those people who, even though they have been apart for years, it was as if they had never separated , true bonds are like invisible webs.

And here comes another questioning. Why do we use so many masks? Why do we deprive ourselves of such gratifying experiences? What has hurt us so much that we have lost our lives building walls instead of creating bonds? We each have a deep seated instinct to hide. We feel protected when we hide. To not be seen is to be safe. This is the entire purpose of the ego; we created a social mask behind we hide ourselves. We gather our experiences, stitch them together with a narrative, and present that patchwork creation to the world, saying: “This is me. Don’t look any futher”. The formulation and modification of this ego-mask becomes the primary work of most of our lives, ans we too easily forget that we are not that mask, that we are, in fact, something much more bigger ans less easily defined. The act of hiding becomes institutionalizes in the awareness.

For this reason we need to find out why we hide and if we want to continue hiding. Often the maintenance of this mask is so painful that it is not worth it. Often keeping masks becomes emotionally toxic. The fulness of all that we are is much bigger than any neat story we want to pack it all into. We can’t truncate parts of ourselves to force a snug fit into the story we want to tell ourselves. We must dwell in our entirety. Anything else becomes self-dismemberment. We must claim all of our history, all our feelings and thoughts, the painful and the celestial all together.

And then we step up to the threshold. Hesitant, naked, vulnerable, we step up to this door of our true Self. That’s when the magic happens. The large, unwieldy collection of victories and wounds we’ve brought with us comes into focus for the first time and we have a vision of ourselves, our whole selves, alive and immense, integral within the living immense universe. That which we were hesitant to look at within ourselves becomes an image of beauty and, yes, majesty blissfully melting into the majestic Beauty all around us.

 We all, on some level, crave this encounter precisely in order to heal the deep pain of separation. If we come with less than our whole selves, if we come with only fragments of our being, how then can we find healing?

Bring all of yourself to his door

 

 

 

sobre a vida

Era uma vez/ Once upon a time

Portuguese/English

Quando eu tinha 3 anos e meio minha avó materna foi morar em nossa casa. Ela tinha um dos nomes mais lindo do mundo, ela se chamava Flora. Toda noite antes de dormir, ela me contava estórias. Contos de fadas, de bruxas, princesas, herois, heroinas, monstros e outros seres encantados. Cada noite eu pedia um conto diferente. Meus contos preferidos eram as estórias das Mil e Uma Noites.

Uma noite os contos que ela sabia acabaram. Então ela passou a repetir contos que eu já conhecia. Eu reclamei. Minha avó, então pegou um livrinho que andava com ela pra todo lado, que continha orações e estórias da vida dos santos. Passadas algumas noites eu disse a ela que não estava gostando tanto daquelas estórias, elas eram muito tristes e todos eles morriam no final. Eu perguntei à ela se não podiamos inventar estórias.

Naquela noite nasceram duas contadoras de estórias e inventoras de palavras que não existiam.

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When I was 3 and a half years old my  grandmother went to live in our house. She had one of the most beautiful names in the world, her name was Flora. Every night before i go to bed she told me stories. Fairy tales about witches, princesses, heroes, heroines, monsters and other enchanted beings. Each night I asked for a different story. My favorite stories were the Arabian Nights stories.

One night the tales she knew ended. Then she began to repeat stories I already knew. I complained. My grandmother then took a little book that she always carried with her, which contained prayers and stories about the lives of the saints. A few nights later I told her that I was not enjoying the stories so much, they were very sad and they all died at the end. I asked her if we could create our own fairy tales.

That night were born two storytellers and inventors of words that did not exist.