Mercurial love

This love was already here inside me

When your heart fractured

The mercury has spread far and wide

And it was so long ago.

Your particles ran everywhere.

In my heart, in my hands, in my eyes, in my lungs.

Your blood in my blood.

Your gaze that knows me, that reads me, translates me.

This life that shines through my eyes smile,

This life comes from you, my sweet bluebird.

You put small stars in the sky

So that when I danced there

I had where to step on,  and never falling back to Earth.

Come my most beloved bird

I opened the window , enter.

I have so many stories that I kept only to your ears.

Please, end this “saudade”.

……………………………….

Este amor já estava aqui em mim

Quando teu coração partiu

O mercurio se espalhou por toda parte

E isto foi há tanto tempo.

Tuas partículas se espalharam por toda parte

No meu coração, nas minhas mãos, no meu olhar, nos pulmões.

Teu sangue no meu sangue.

Tua mirada que me sabe, que me lê, me traduz.

Esta vida que brilha quando meus olhos sorriem,

Esta vida vem de ti, my sweet bluebird.

Colocastes pequenas estrelas no céu

Para que quando eu dançasse por lá

Tivesse onde pisar, sem nunca cair de volta para Terra.

Vem meu pássaro mais adorado.

Abri a janela, entra.

Tenho tantas estórias que guardei só para teus ouvidos.

Por favor acabe com esta saudade.

 

Tristes Trópicos

Hoje pessoas foram protestar pela merda que elas mesmo fizeram, ovelhas raivosas lideradas pela midia.

Hoje morreu Ferreira Gullar, um grande poeta, um homem lucido.

Hoje eu vi um filme russo, em umas das cenas finais o personagem queima uma casa onde viveu belos momentos, a casa simbolizava de certa forma o movimento hippie, sua vida em meio aquela atmosfera de musicalidade, amor, liberdade. O sonho morre.

Hoje , como todos os dias, é um péssimo dia para estar lucida , vendo o saqueo dos tristes trópicos.

Hoje, eu continuo amando minha América Latina e todos seus matizes de cores, ve-la eternamente sangrando me dói.

Hoje a esperança não matou a fome.

“No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
FERREIRA GULLAR

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Eu me vejo em minhas criações

Eu sempre quis saber quem eu realmente era, penso ser uma das grandes perguntas da vida: quem somos? Uma busca quase sempre infrutífera pois sempre eu vejo parte , fragmentos, como imagens refletidas em um pedaço de espelho. Embora conheça partes em mim , outras partes são como um mar escuro, eu sinto suas marés, seu cheiro, nado nele, mas não o vejo. Demorei a perceber que só me vejo naquilo que crio, minhas criações são partes deste quebra-cabeça mutante. Quando não estou  criando com a palavra, estou criando  com textura e aromas, contruindo com eles os castelos de minhas memórias.

A comida me remete a infância na casa de minha avó, é para lá que eu gostaria de levar todos os que amo e amei, naquela cozinha mágica, no quintal com um pessegueiro de flores perfumadas, os pessegos que secavam ao sol para depois ir para o arroz, no balanço que ficava no abacateiro,  o abacate  amassado no garfo e por cima colocava-se o limao e açucar, no jardim com alfazema e hortelã, a hortelã que ia para o suco e para a carne, mexer na farinha que fazia o nhoque, amassar as batatas para fazer o pure, colher alecrim e depois ficar cheirando a palma da mão, fazer bonequinhos com legumes e palitos. Cozinhar é tranformar em arte as mais belas memórias. Quando eu volto para aquela cozinha mágica eu me vejo, não mais em partes, mas inteira.

Eu não tenho nenhuma foto da casa onde minha avó vivia, quando eu tinha quatro anos ela deixou esta casa e foi morar conosco. Mas me lembro que ela era azul e a sua volta era cheio de hortensias  azuis e roxas. Hortensias sempre me lembram minha avó Flora. Talvez esta imagem tenha feito do azul minha cor predileta.

Toda vez que ganho uma receita, eu a testo fielmente e depois a transformo, as vezes nem é mais a receita que foi passada, a receita apenas inspirou uma nova criação. Ela renasce, uma mescla de mim, de minhas memórias. Foi assim que criei minha versão de chutney. O chutney é originário da India, pode ser feito com uma série de ingredientes e mesmo na Índia são encontradas varias versões dele, normalmente são feitos com yougurte, especiarias, gengibre, e uma série de outros produtos que variam. Todavia com a entrada dos ingleses a receita foi alterada, foram incluidas frutas e a proporção de vinagre também mudou. Hoje em dia voce encontra variações de chutney tanto para o doce quanto para o salgado.

Eu tive uma paciente indiana , ela fazia congelados para  expatriados indianos que viviam no Brasil. Um dia pergutei se ela poderia me ensinar algumas receitas, eu amo comida indiana. Ela me convidou para passar uma tarde com ela e como tinha muitas encomendas, foi me ensinando enquanto trabalhava. Ela tinha um milhão de especiarias, a casa inteira cheirava , era como estar no meio de uma feira exótica, e aquelas mulheres com sáris lindos falando ora em portugues , ora em indiano, a música indiana tocando,  todas me ensinando a cozinhar as receitas de suas familias, das mães, das avós. Foi um momento tão especial, eu o guardo na caixinha magica das lembranças. De tempos em tempos abro esta caixa , tiro uma das estórias e a conto, depois cuidadosamente volta a guarda-la. São muito preciosas para mim

Nos próximos posts compartilharei minhas versões de chutney. A versão do meu eu, das minhas lembranças daquela tarde.

 

hortensia

Cangote

Cangote : ninho de perfumes que viciam, local de suavidade pessegueira onde se pousa o nariz antes de adormecer; sítio onde se encaixam dentes e boca , causando arrepio borboletal que  se espalha pelo corpo e jorra pelos olhos. Tua casa.

Há um ano cortei meu longos e negros cabelos, que chegavam quase na cintura. Cortei na altura da nuca. Também troquei a cor, para vermelho. Descobri que esta era minha cor todo o tempo, ao menos para os cabelos. Era uma tarde fria, frio cortante.

Quando sai de dentro do salão senti o frio de uma maneira tão inédita. Que sensação feliz do vento dançando na minha nuca,  senti uma liberdade tão plena, era quase possível voar. Quanta leveza!!! 

Desde então, mantenho as madeixas aparadas e as portas abertas para ventanias e tempestades.

 

cangote

(imagem retirada do Pinterest)

Ausência

Ela permanecia ali,

Pés enterrados na areia

As ondas vinham e iam.

Os pés cada vez mais fundos na areia,

Pequenos carangueijos tímidos.

Então, no horizonte se anunciou a chuva

Iansã trouxe os ventos lunares

Pra fazer bailar os cachos dela.

Ela permanecia ali, enraizada.

Esperando que o desabar da chuva

Levasse toda aquela melancolia,

Que carregasse para longe a ausencia dele.

Ela adorava o mar…

O mar era seu leito uterino

Era no mar que ela esparramava seus segredos

E lá eles ficavam guardados em conchas mudas.

A chuva passou.

Chuva e mar levaram parte da melancolia,

Mas a ausencia dele seguia ali

Cortando a carne …

Permanecia nela, enraizada.

pes

 

 

Mystères d’Éleusis

(Portuguese/English)

Noites melancolicamente infinitas

A maré sobe , selvagem

O telefone que toca, minha morfina.

Tudo é tão fragil,

Este amor feito de tão delicado veneno

Este cotidiano tão fugitivo.

Quero beber até a exaustão teu suor

Quero a brisa da tua respiração

Detesto estas pausas, estes silencios feitos de ausencia

Leve para longe este espirito analítico,

O medo, a ponderação.

Eu quero a dança fora do ritmo, a loucura

O grito, a tormenta,

Quero teu lado maldito!

Rejetei todos os deuses solares , alegres e criadores

Eu escolhi a ti, o sombrio,

Meu Hades, o fim e o inicio de tudo.

Quero mesclar minha primavera à tua dor

E ver o nascer de flores insolitas, impossíveis

Te encontrar nos meu labirintos

Recolher tuas feridas e poema-las

E te amar com minha palavra, meu sopro

Dormir aninhada em tua noite aquosa glacial.

                                                            ………

 

Mellowly endless nights

The tide rises, wild

The phone that rings, my morphine.

Everything is so fragile,

This love is made from so delicate poison

This quotidian so fugitive.

I want to drink to the exhaustion your sweat

I want the breeze of your breath

I hate these pauses, these silences made of absence

Take away this analytical spirit,

The Fear, the Pondering.

I want to dance out of rhythm, the madness

The scream, the storm,

I want your cursed side!

I rejected all the solar, joyful and creative gods

I chose you, the shadowy,

My Hades, the end and the beginning of everything.

I want to merge my spring with your pain

And to see the birth of exquisite, impossible flowers

Meet you in my mazes

Collect your wounds and poem them

And love you with my word, my breath

And sleep nestled in your icy watery night.

 

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Aprendendo a voar

Era uma noite fria, pelas ruas pessoas casacos ,cachecóis, luvas, narizes gelados. Num restaurante em Buenos Aires entra um casal, devem ter mais de 70 anos , talvez 80 anos. Entram de mãos dadas, o garçom lhes indica uma mesa onde sentar. Começam a retirar seus casacos para sentar, as mãos de ambos eram tremulas, a idade as havia deixado lentas, retirar os casacos levou alguns minutos, eles riam, riam um para o outro, riam um do outro, das suas inabilidade para retiraros casacos , riam da agilidade perdida.

Eu estava numa mesa próxima e, curiosa, passei a observa-los.

Acomodaram seus casacos nas cadeiras, ele puxou a cadeira para que ela sentasse. Sentaram-se um de frente para o outro. Um olhando para o outro. As mãos tremiam de amor, da idade? As mãos se procuravam , se entrelaçaram como raízes sobre a mesa. Eles pedem um vinho , algo para comer, não me atentei ao prato deles.

Durante todo o jantar eles sorriam um para o outro. Conversavam como velhos amigos que não se viam há tempos,  tanto assunto para por em dia, e todos assuntos pareciam fascinar, enquanto um falava o outro escutava com olhos brilhantes, por vezes uma das mãos saia a bailar e acarinhava o rosto do amado ou da amada, as vezes uma das mãos agarrava a outra e a beijava com tanto querer. Não existia  mais mundo para além daquela mesa, eram só eles dois. Um universo só deles. E tudo era tão fluido, tão fácil, como quando vemos aqueles dançarinos quase flutuando, e nos parece tão natural voar . Como eles fazem isto todos os dias? Como eles voam sem asas? Como eles faziam os relógios parar daquela maneira?