El día que me quieras

Por volta de meus 2 anos de idade minha avó materna foi morar conosco. Eu dormia com ela, ela antes de dormir escutava músicas, tangos mais precisamente. Por isto talvez eu tenha um carinho tão especial por este tipo de música. Conta-se que ela e meu avô dançavam tango como ninguém, que era lindo ve-los bailar, eram como pássaros, pareciam flutuar e se olhavam com um amor sem igual.

Minha avó foi prometida em casamento a um homem bem mais velho, mas aos 17 anos foi trabalhar no telégrafo como o fazia diariamente mas nunca mais voltou. Ao fim do dia, entrou no carro de meu avô e fugiram Ela só levou um vestido e um perfume 9presente de meu avô que veio junto com uma carta onde combinavam o dia e horário da fuga). Não se casaram no papel a príncipio, eles eram anarquistas, tiveram 6 filhos, só se casaram após o nascimento do terceiro, mas só no cartório. Um escandalo na cidade. Dizem que minha avó era a mulher mais linda da ciadade de Uruguaiana, quando ficou viúva o homem para qual ela estava prometida, antes de fugir com meu avô, reapareceu. Ainda queria se casar com ela, ele esperou mais de 30 anos. Mas minha avó recusou, contava que amor igual ao que teve com meu avô, era uma vez só na vida.

Entre os tangos que ela mais gostava , El día que me quieras, era sem dúvida o predileto. Eu perdi as contas de quantas vezes dormi escutando esta musica. Ainda é uma de minhas preferidas, e muitas vezes me fez chorar quando a escutava pelas ruas de Buenos Aires, em algum lugar lá entre as estrelas, dançam dois belos pássaros.

El día que me quieras – The Day When You’ll love Me
Music: Carlos Gardel. Lyrics: Alfredo Lepera.

 

Acaricia mi ensueño
el suave murmullo de tu suspirar,
¡como ríe la vida
si tus ojos negros me quieren mirar!
Y si es mío el amparo
de tu risa leve que es como un cantar,
ella aquieta mi herida,
¡todo, todo se olvida!

El día que me quieras
la rosas que engalana
se vestirá de fiesta
con su mejor color.
Al viento las campanas
dirán que ya eres mía
y locas las fontanas
me contarán tu amor.
La noche que me quieras
desde el azul del cielo,
las estrellas celosas
nos mirarán pasar
y un rayo misterioso
hará nido en tu pelo,
luciérnaga curiosa
que verá… ¡que eres mi consuelo!

Recitado:

El día que me quieras
no habrá más que armonías,
será clara la aurora
y alegre el manantial.
Traerá quieta la brisa
rumor de melodías
y nos darán las fuentes
su canto de cristal.
El día que me quieras
endulzará sus cuerdas
el pájaro cantor,
florecerá la vida,
no existirá el dolor.

La noche que me quieras
desde el azul del cielo,
las estrellas celosas
nos mirarán pasar
y un rayo misterioso
hará nido en tu pelo,
luciérnaga curiosa
que verá… ¡que eres mi consuelo!

 

My daydream is caressed
by the light murmur of your sighs.
How mirthful life is
if your black eyes are willing to look at me!
And if your laughter,
soft like a song, gives me shelter,
my wound is soothed,
everything, everything, is forgotten!

The day when you’ll love me
the embellishing rose
will attire itself
in its best colours.
Bells sounding to the winds
will ring out that now you’re mine.
And the fountains, insane with joy
will tell me of your love.
The night, when you’ll love me,
peering from the blue of the sky,
jealous stars
will watch us go by
and a mysterious beam
will nestle in your hair:
an inquisitive firefly
who will realize that you’re my solace!

Recitative:

The day when you’ll love me,
there will be only harmony,
daybreak will be clear
and the spring will be merry
the breeze will quietly bring
a rumor of melodies
and the fountains will offer us
their song of crystal.
The day when you’ll love me,
the songbird
will sweeten its cords,
life will blossom
pain will not exist any more.

The night that you love me,
peering from the blue of the sky,
jealous stars
will watch us pass,
and a mysterious beam
will nestle in your hair:
an inquisitive firefly
who will realize that you’re my solace!

Petite Boîte à Musique

Sinto falta do frio.

Estes dias de insuportável calor,

Onde tudo fica paralizado, gosmento, movediço

Me são insuportáveis.

Já me basta a fogueira que arde cá dentro

Este incendio desapiedado.

Meu sangue é como um rio de lava.

Cada pulsar deste coração espalha cinzas e fogo

Se o inverno viesse….

Se uma tempestade de neve entrasse pela minha boca,

Descesse até o estomago, vizinho do vulcão.

Não sei precisar quando este incendio se instaurou.

Mas suspeito que foi no dia em que vieste oferecendo aquelas borboletas no estomago.

Me recordo de come-las, um gosto pretérito e familiar se fez em minha boca

E de repente, o fogo se alastrou por tudo.

Talvez seja por isto que eu precise do teu hálito invernal.

Você, a musica de minha infancia…

“Libeh ken brenen un nit oyfhern.

A harts kon benkn, veynen on treren.

É o amor que pode queimar por longos anos

Um coração pode ter saudade e chorar sem lágrimas”

Ishli Kafta

Durante o tempo que morei em Buenos Aires, fiz um curso bem longo de gastronomia armênia. A Argentina é o país com uma grande população de armênios fora da Armenia. Muitos deles são netos ou bisnetos de armênios que sobreviveram ao genocidio turco, eles trouxeram suas musicas, sua gastronomia, seus costumes para a América.

Para quem tem interesse o curso pode ser feito na íntegra, dura em média 1 ano e 2 meses, depende do ano(com turmas maiores eles acabam colocando receitas a mais e estendendo o curso), ou voce pode entrar em contato e ir em uma ou duas aulas de seu interesse. Para quem gosta de viagens que incluem aprendizado gastronomico fica a dica, o site do curso que eu fiz é Cocina Dibet. A professora é uma senhora simpatississima, muito querida que conta todos os segredos das receitas e um pouco de história da comunidade armênia argentina. Ah, uma das auxiliares faz um café turco memorável.

Das muitas receitas que aprendi o Ishli Kafta é uma das preferidas de minha filha. Na gastronomia arabe há variações desta receita, mas a que vou repassar é a armênia.

INGREDIENTES:

Para camada externa

1/2 kg de trigo fino já lavado

700 gr de carne moida sem gordura, passada no processador com 1 pimentão vermelho (sem sementes, já limpo)

sal e pimenta do reino

Para o recheio

1 kg de carne moida com um pouco de gordura (pode ser patinho)

1 cebola picada a brunoise

100 gr de manteiga

Sal

Pimenta do reino

Aji (pimenta tipica da argentina, mas pode-se usar outra como caiena)

Cominho

Pimentao em pó (comum na Argentina, mas dificil de encontrar aqui no Brasil)

Bahar (pimenta síria)

 

MODO DE PREPARO

Recheio: em fogo alto refogar a carne e a cebola, até que a cebola fique transparente. Retirar do fogo  e acrescentar a manteiga e os condimentos, misturar bem até que a manteiga derreta completamente. Reserve e deixe esfriar completamente. Fazer pequenas bolinhas do tamanho de uma noz com o recheio já frio, reserve as bolinhas.

Parte externa: misturar bem a carne já processada com o pimentão, com o sal , pimenta e o trigo. Acrescente um pouco de agua para facilitar o manuseio da massa que irá se formar. Pegue uma porção que caiba na palma da mão e amasse, até deixar uma camada muito fina.

Nesta camada fina coloque uma das bolinhas do recheio e então feche, formando uma bola do tamanho de uma ameixa. É importante que a camada externa fique fina e o recheio de dentro esteja bem umido, para então termos uma casquinha croconte com um recheio mais “mole”. Você pode fazer formas ovaladas ou esferas. Deixe uma vasilha com água a mão para molhar as mãos, isto ajuda a fazer a esculpir a kafta, não gruda nas mãos.

kefte

Foto do curso Dibet

Termine de fazer todos as kaftas , unte uma forma com manteiga e leve ao forno médio por 20 minutos ou cozinhe em água com sal ferevendo por 5 minutos (é uma outra variação da receita). Eu gosto mais no forno. Sirva com um molho de iogurte, limão ,alho e hortelã.

E voilá, bon appétit!!

kef

 

 

 

Chutney de Manga

O chutney é uma conserva condimentada, feita com frutas ou legumes, vinagre, açúcar e especiarias, que são cozidos levemente.

A manga é originária da India. Lá a fruta é símbolo do amor eterno. É chamada a alma da Primavera, as 5 pétalas das flores da manga significam as 5 flechas do deus indiano de Kamdev que acerta os corações dos amantes. Existem muitas estórias sobre a origem da fruta, vou contar a que mais gosto.

Conta-se que a primeira mangueira nasceu das cinzas de uma princesa que foi queimada por uma feiticeira. Suas cinzas foram espalhadas pela mata, elas voaram até se depositarem em um monte. O tempo passou e ,então neste monte , brotou uma árvore.
O imperador que tinha por hábito fazer longos passeios pela floresta encontrou a planta e encantou-se pela beleza de suas flores e de seus frutos que cresciam em profusão.
Uma das mangas, porém, era especial, parecia destoar de todos os outros frutos em tamanho, perfume, cor e beleza. O imperador então passou a contemplar a fruta todos os dias, esperando o dia em que estivesse pronta para ser colhida e saboreada.
Quando ela finalmente amadureceu e caiu no chão, o soberano correu para satisfazer seu desejo há tanto tempo acalentado, mas qual não foi a sua surpresa ao ver a linda princesa emergir de dentro da fruta totalmente liberta dos feitiços a que fora submetida. Assim que se olharam, ambos perderam-se de amores e nunca mais conseguiram se separar.

E nada como ter na ceia do Ano Novo, um potinho deste elixir de amor eterno né? Segue a receita. A próxima vez que fizer , troco as medidas por gramas (vou pesar tudo para ficar mais exato)

Ingredientes:

4 ou 5 mangas maduras (mais ou menos 700 gr da fruta bem picada)

1 maça bem picada (pedacinhos de no max 1 cm)

1 cebola bem picada (a brunoise)

1 xícara de açucar cristal

1/2 xicara de vinagre de maçã (pode ser menos se vc gosa menos acido)

2 a 4 dentes de alho (ai depende do gosto, eu coloco 4) cortados em brunoise

1 cm de gengibre bem picado

1 pimenta dedo de moça cortada a brunoise (retirar sementes), pode ser outra pimenta se não encontrar esta

1 pedaço de canela em pau de 10 cm

3 cravos da Índia

1 folha de louro

1 colher de sopa de cominho

1 colher de sopa de curry picante

1 colher de sopa de canela em pó

Cardamomo (coloco  7 ou 8 inteiros, depois retiro)

Suco de meio limão

 60 gr  de coco ralado (se for fresco melhor)

MODO DE PREPARO

Numa panela de fundo duplo colocar o açucar e fazer ponto de caramelo claro. Atenção: caramelo escuro deixa um fundo mais amargo. Colocar o vinagre, a maça , alho, gengibre, cebola, a pimenta picada (atenção para deixar tudo a mão , já preparado, senão o açucar vai queimar além do ponto). Mexa, o açucar que ficará duro assim que jogarmos o vinagre, o açucar vai dissolver  com a agua que saíra da cebola, maça, etc. Já coloque em fogo baixo

(A maça contém pectina que irá dar o ponto de “geléia”)

Coloque a manga já picada. Mexa até sentir que não há mais açucar caramelado (tudo isto em fogo baixo). Aí adicione a canela em pau, o cravo, o cominho, a canela em pó, o curry, cardamomo, folha de louro e o suco de limão. Mexa para misturar todas as especiarias, deixe em fogo baixo até começar a dissolver a manga, vai ficar com uma aparência de geléia com pedacinhos de frutas. Isto demora cerca de 30 a 40 minutos dependendo do fogão, mas fique de olho mexendo sempre para não grudar no fundo. Quando já estiver quase pronto, coloque o coco ralado e mexa até dar o ponto de geléia (secar boa parte do liquido que soltam os ingredientes). Normalmente eu não coloco água.

A receita rende uns 5 a 6 potes de 170 gr. Para minha casa coloco tudo em dois potes, um de 500 gr e  outro menor.

O chutney é algo muito particular, cada um tem sua receita, eu mesmo modifico vez por outra os ingredientes desta. Outro dia, coloquei também folhas de hortelã e ficou delicioso.

31196695142_6439c13941_o1

 

Questionamentos

 

Entra ano e sai ano, algumas coisas se repetem e alguns questionamentos permanecem.

Arrumo todos armários, separo um monte de coisas para doar, me pergunto por que guardo tanta coisa inútil? Que bom poder mudar de casa tantas vezes e ter que fazer a “limpa” praticamente todo ano.

Todo ano penso em algo pra cozinhar para o Natal, mas acabo aceitando convites e vou passar na casa de alguém, será que algum dia teremos Natal em nossa casa?

Todo ano me lembro das comemorações de Chanukah (festa judaica, fui criada na religião judaica) , a festa das luzes onde acendemos uma vela por noite, simbolizando a luz que vence a escuridão, a luz que ilumina o caminho durante tempos dificeis e me lembro de uma foto tirada em 1931, uma menorá (um candelabro usado nas comemorações) com velas acesas em frente a uma janela . Da janela se vê uma bandeira nazista.

Me pergunto onde foi parar meu brinquedo predileto? Um cogumelo que se abria,era uma pequena casinha, do qual guardo apenas o  pequeno cachorro, que hoje pertence a minha filha. O pequeno cachorro é a cópia fiel do me antigo cachorro, seria uma coincidencia? Alguma criança ainda terá se divertido tanto quanto eu com aquele brinquedo? Será que o abacateiro da antiga casa de minha avó ainda dá abacates e será que alguma criança ainda pendura cordas em seus ramos para se balançar? Não gosto de pensar que talvez já não exista nem a casa nem o abacateiro, mas sim mais um prédio naquele lugar onde fui tão feliz.

Por que apesar de atéia me sinto tão em casa quando estou em monastérios ou Igrejas antigas? Qual o significado de meu sonho recorrente com uma aldeia de casas todas em pedras, com o tempo sempre nublado, frio e chuvoso onde uma mulher de olhos cor violeta me ensina a usar ervas para curar doenças? Por que sempre sonho com pessoas que vão morrer, por que elas vem se despedir de mim em meus sonhos?

Por que sempre tenho a estranha sensação de nunca ter encontrado minha veradeira casa, toda mudança é sempre uma alegria, mas assim que me acomodo os ventos me falam ao ouvidos: “não se acostume, não é aqui que voce fincará suas raízes”. Terei eu, raízes algum dia?

O que me fez ter medo de altura? Será que algum dia vou acertar a mão na receita de uns bolinhos de carne que minha avó e mãe faziam? Será que algum dia alguém inventará um perfume de dama-da-noite que caiba dentro de um frasco? Quando eu era pequena eu acreditava que o mar falava comigo, será que ele ainda me escuta?

…..

Every year, some things repeat themselves and some questions remain.

I organize all the cabinets, separate a lot of things to donate, I wonder why I keep so much useless thing? It’s great to be able to move on many times and have to do the “cleaning”  every year.

Every year I think of something to cook for Christmas, but I just accept invitations and I’ll go to someone’s house, will we ever have Christmas dinner at our house?

Every year I remember the celebrations of Chanukah (Jewish feast, I was raised in the Jewish religion), the feast of lights where we light a candle every night, symbolizing the light that overcomes the darkness, the light that illuminates the path during hard times and I remember  a photo taken in 1931, a menorah (a candlestick used in the celebrations) with candles burning in front of a window.  Through the window you can see a Nazi flag.

Wonder where my favorite toy went? A mushroom thatwhen opened, it was a small house, of which I keep only the little dog,  now  this little dog belongs to my daughter. The little dog is the faithful copy of my real old dog, would it be a coincidence? Would some child  have as much fun as I do with that toy? Does the avocado tree from my grandmother’s old house still gives avocados, and does any child still hang ropes on their branches to swing? I do not like to think that perhaps there is no house or avocado anymore, but rather a building in that place where I was so happy.

Why even atheist I feel  at home when I am in monasteries or ancient churches? What is the meaning of my recurring dream with a village of houses made all of stones, with the weather always cloudy, cold and rainy where a violet-eyed woman teaches me to use herbs to heal diseases? Why do I always dream about people who will pass away, why do they come to say goodbye to me in my dreams?

Why I always have the strange feeling of never having found my home, every change is full of joy, but as soon as I get settled the winds tell me in my ears: “do not accomodate, this is not where you put down roots.” Will I ever put down roots in some place?

What made me afraid of heights? Will I ever learn to do the recipe for some meatballs my grandmother and mother did? Will someone ever invent a night-blooming jasmine perfume that fits inside a bottle? When I was little I believed that i could talk with the sea, did he still listen to me?

Córdoba, Argentina.

Mon Soleil

Perdi as contas de quantas vezes te perdi

Te perdi sem nunca  te ter

Tua ausencia é qualquer coisa

Como um céu abarrotado de nuvens negras

Que vez por outra escapam raios de sol

E pousam sobre meus olhos

Tua ausencia, meus dias turvos

Tu, meu sol invernal

Vamos passar a tarde no parque

Roçar os pés na grama fresca

Olhar o céu deitados na terra

Quero conversar com teu silêncio

Me conte sobre aquele poeta que nunca ouvi falar

Preciso te respirar

Me alimentar de teu sal marinho.

Temos o mesmo sangue

E quando me sonhas

Eu desperto durante a noite.