sobre a vida

Uma carta para minha mãe

 

Mãe , eu escrevo em terceira pessoa este texto para tentar organizar tudo o que aconteceu na minha cabeça.

Engraçado mas eu não tenho lembrança de estar no consultório ou em um trabalho de auditoria que eu fazia quando ela me ligou. Ela, minha mãe. É como a memória daquele dia tivesse sido borrada, e das minhas lembranças restam um emaranhado de sentimentos, de flashes, de um tempo que passou descompassado do relógio. Ela me disse, que estava com muita falta de ar e meu pai não queria leva-la ao médico.

Há mais de ano minha mãe vinha com um longo histórico de entradas e saídas de hospitais, ficava internada por dias e voltava para casa. O diagnóstico era enfisema pulmonar. Me lembro que neste dia, fui o caminho todo pensando que meses atrás numa consulta, o médico me disse: uma gripe para ela pode ser fatal, só 30% do pulmão funciona, o resto está fibrosado. Eu repeti isto mecanicamente para o resto da familia. Eu, no fundo sempre soube da gravidade do problema, mas como ela sempre saia do hospital, parecia que ele não existia. Eu negava para mim mesma qualquer e todo tipo de alusão a morte, ainda que inconscientemente. Então, no caminho para a casa eu apenas tentava me convencer de que era mais uma internação e que ela voltaria bem. Também estava um pouco irritada, pois sabia que minha mãe continuava fumando escondido. No meio dos pensamentos me lembrei de um dia, poucas semanas antes, que eu havia ido com ela a um café , destes bem caros e chics, ela sempre gostou de cafés, era a primeira vez em muitos anos que estava me sobrando dinheiro e eu queria dar aquele presente a ela. Me lembrei que, andar as duas quadras do estacionamento até o café foi difícil para ela. Ela teve falta de ar, precisou parar. Mas na minha cabeça, ela era sempre forte, eu de alguma forma deletei aquele episódio que voltava repetidamente, misturado as palavras do médico durante todo caminho durante o caminho até a casa dela naquele dia.

Minha mãe mal pode andar da porta de casa até o carro, corri o mais rápido que pude até o hospital. Não me lembro do caminho, só me lembro de ficar repetindo: “mãe vai ficar tudo bem”. Mesmo sabendo que nada estava bem. No hospital, ela chegou e já foi apra a unidade de emergencia, a saturação de oxigenio estava 30%. Eu repetia estes termos técnicos pra mim, pra minha irmã no telefone. Eu, que tão familiarizada com estes termos, num passe de magica passei a ve-los como uma língua estranha. Minha mãe numa maca, com oxigênio, com dores nas costas. O medico disse que naquele hospital o convenio dela não autorizou a internação na UTI. Eu queria ficar do lado dela, mas tive que ficar no celular brigando com o convenio. No final a transferiram para um lugar horrivel, eu já nao estava lá, minha irmã havia trocado comigo, eu estava exausta , nem sei quantas horas se passaram. Minha irmã me ligou, disse que haviam feito traqueostomia na nossa mãe, eu briguei com minha irmã. Não havia motivos para tal procedimento, mas de verdade eu queria era brigar com o mundo. Os médicos haviam errado, mas como minha irmã poderia ter feito algo, ela nem é da area de saúde, como iria argumentar com plantonistas? Eu sabia que de lá pra diante, nada mais de bom viria, o mundo estava levando minha mãe e eu queria brigar com o mundo.

Não sei que horas voltei para casa, mas me lembro de estar sozinha na cozinha, comendo uns bolinhos que minha mãe havia feito no domingo (era segunda-feira). Era uma de minhas comidas preferidas, receita da minha avó, minha mãe sempre fazia. Eram bolinhos feitos com batatas recheados de carne, azeitonas e ovos picados, que depois são passados na farinha e fritos. Tinham oito bolinhos, eu comia em média 3, mas naquela noite comi um só, queria que eles durassem, tive a sensação que talvez fosse a última vez que ia come-los, tirei a idéia da cabeça. Minha mãe não estava na cozinha aquela noite, a tv com a novela estava desligada, eu não tinha com quem conversar. Bem , tinha meu pai, mas eu não queria falar com ele. Achei que se guardasse os bolinhos por mais dias ela voltaria. Não esperem racionalidade nestas horas. Dormi escutando Simon&Garfunkell, minha mãe gostava deles. Hello darkness my old friend I come to talk with you again…

Ano passado, um amigo virtual que conheci num site de musicas me escreveu, contando que sua mãe havia falecido há poucos meses. Eu confesso que não sei o que dizer nestas situações, soltei um mecanico “meus sentimentos”, e ele me respondeu: não tem problema, está tudo bem. Mas de verdade, eu sabia que não estava, que podia ter dito algo melhor. Foi então que sei lá de onde tirei: é muito triste quando alguém que nos conhece tão bem , desde pequenos, morre, uma parte da nossa história vai com eles. Aquilo pareceu fazer muito sentido para nós dois, um sentido profundo além das palavras, ambos haviamos perdido parte de nossas histŕoias, e quem nunca perdeu isto jamais irá entender.

Foram dois meses e mais alguns dias com minha mãe internada, em coma induzido. Ela teve uma septicemia grave, eu achei que não iria se recuperar. Eu ia todos os dias no hospital e contava sobre meu dia. Desde que eu havia saido de casa, apesar de todas minhas diferenças com ela, eu ligava quando chegava do trabalho para a loja da minha mãe. 32556486. Este era o telefone, o unico que eu não tinha no celular nem em nenhuma de minhas agendas, pois sabia de cabeça. Este sempre foi o telefone da loja dela, eu sabia ele decor desde meus 12 anos, eu ligava sempre que chegava da escola, eu continuei ligando quando entrei na faculdade, eu continuei ligando depois que sai de casa, e agora todos meus dias tinham aqueles momentos que eu chegava e não tinha pra quem ligar. As vezes eu ligava mesmo assim, meu pai ou minha irmã atendiam. Mas naquele espaço de tempo até alguém atender, eu ficava imaginando minha mãe atendendo. Naqueles segundo de telefone chamando, o mundo que eu conhecia com a minha mãe ao telefone, aquele mundo estava intocado.

A septcemia foi superada. Foram dois meses e alguns dias que eu fui no hospital todo dia, ouvindo montes de termos tecnicos que, eu sabia serem péssimas noticas, Foram dois meses e alguns dias dizendo pra minha irmã e pro meu pai que a situação era delicada mas ela ia sair de lá. Mentira, eu sabia que não ia. Uma semana depois dela estar internada eu comi o último bolinho, acho que eu demorei uma hora para comer algo que eu comia em 5 minutos. Sabe quando voce é pequeno e te dão uma hóstia e voce fica com ela na boca até que ela derrete, ela desaparece, e aquilo parece certo e sagrado? Pois…

Passaram dois meses e levaram minha mãe para um quarto , mas eu percebi que não havia muita estrutura, reclamei com o convenio mas eles não me ajudaram. Passei a revezar com minha irmã as noites no quarto. Me lembro que um dia levei cerejas pra minha mãe, ela estava cansada da comida de lá. Levei um pequeno pote, tirei as sementes, ela ainda falava com dificuldade por conta da traqueostomia. Dei uma por uma das cerejas, ela ria depois de muito tempo. Cortei as unhas dela, fiz acupuntura pra regular a pressão arterial, fiz massagens, disse que a amava, ela chorou e me disse que sentia não ter sido uma boa mãe. Mas eu queria do fundo do meu coração que aquela não boa mãe voltasse pra casa. Num dos outros dias que fui passar com ela, a enfermeira veio trocar a fralda, minha mãe chororu de vergonha, eu chorei por dentro com ela, senti todo o peso do sentimento de humilhação que ela sentiu. Esta ligação que vc tem com a mãe é tão unica. Minha maẽ sempre sonhava comigo quando eu estava em situações ruins, um ano antes eu tive um relacionamento abusivo, meu ex quase me matou, minha mãe me ligou como se soubesse de tudo. Eu disse que estava tudo bem, ela sabia que não estava.

No quinto dia no quarto, devido a negligencia dos médicos que não perceberam que minha mãe estava com a bexiga cheia, a bexia comprimiu o diagragma eela teve uma parada cardio-respiratória. Eles tentaram reanima-la e ela voltou apra UTI. Minha irmã me ligou, eu estava no trabalho, um amigo ouviu minha conversa e se ofereceu para ir comigo ao hospital. Lá conseguimos a tranferencia dela para um hospital mais bem aparelhado e mais humano.

Dois dias depois, o médico disse que o quadro era grave ainda, mas que surpreendentemente minha mãe respondia bem e que na semana seguinte voltaria para um quarto. Porém me alertou que minha mãe teria alta mas sua vida seria muito diferente: ela havia feito uma trombose na perna, provavelmente não voltaria a andar, e ficaria dependente de oxigenio para sempre. Me lembro de ter pensando: a casa dela não tem estrutura para ela ficar neste estado, minha mãe sempre fez tudo sozinha, agora vai ficar com fralda, com enfermeira, com oxigencio, ela vai preferir morrer a isto. Mas tirei este pensamento da cabeça, numa ação irracional do tipo: se eu não pensar isto nunca vai acontecer, ela vai sair bem do hospital e não vai precisar de tudo isto. Incrivel , como mentimos para nós mesmos.

Era uma quinta-feira quando fui ver minha mãe na UTI, ela estava ótima pela primeira vez naqueles ultimos meses. Fiquei tão falegre de poder ter trocado de hospital, ela estava tão mais feliz, ela riu muito, contou piadas. Eu estava com minha irmã. Fazia frio. Na hora de irmos embora ela nos mandou muitos beijos pelo ar, me lembro de sair pela porta e ve-la aidna mandando beijos. No dia seguinte era o meu pai que ia na UTI (só podiam 2 pessoas por dia). Meu pai voltou e disse que ela estava sedada e não podia mais falar. Eu o acalmei e disse que talvez isso fosse melhor pra ela se recuperar mais rapido, mas meu coração me dizia o contrário. No sabado fui na visita da manhã, ela estava sedada, disse que a amava muito, ela dormia. Sai de lá repetindo pra mim mesma que aquilo era um procedimento comum, que estava tudo bem. Fui para um aniversário com meu marido, na época namorado, quando meu pai me ligou ou foi o hospital, esta parte minha memória borrou-se completamente. Pediam para que fossemos pro hospital. Eu sabia o motivo, mas fui o caminho todo tentando me convencer e convencer quem estava no carro de que o hospital havia nos chamado provavelmente para pedir autorização para algum procedimento mais complexo. Minhas mãos suavam. O médico tinha dito que na semana seguinte ela iria para o quarto, eu não queria ouvir outra verdade que não fosse aquela. Na outra semana minha mãe iria para o quarto, em um mês estaria de volta para casa, eu já até estava procurando enfermeiras.

Quando entrei no saguão que dava para UTI, estavam minha irmã e meu cunhado abraçados, ao fundo eu vi uma maca, um corpo coberto até a cabeça. Não me lembro das palavras do médico, nada fazia sentido, ela irira para o quarto na semana seguinte, eles disseram isto. Perdi a força nas pernas, nos braços, lembrei de todo o processo neurológico em quadros onde a dor do paciente é tão grande que, ele perdia a percepção das pernas e braços, fiquei repassando o nome dos neurotransmissores na minha cabeça, olhei de novo para a maca com o lençol branco, pensei deve ser outro paciente, não pode ser ela, eles se equivocado. Depois, por um momento vi algo se mexer sob o lençol e pensei que era minha mãe respirando, o médico tinha se enganado, será que eles tinha feito todos os testes mesmo? Por que não tentaram reanima-la? Mas e se tentasse de novo. Naquela hora todo meu conhecimento médico era inutil perante minha negação da morte. Mas eu apenas fiquei quieta, não conseguia falar. O médico passou então a me explicar os procedimentos necessários, como a autopsia, reconhecer o corpo e acertar os detalhes do enterro. Eu ouvia, mas não escutava.

Não lembro como fui parar numa sala com uma mulher, que me dizia o valor para preparar o corpo de minha mae, como ela ficou muito tempo internada isto daria mais trabalho , a maquiagem, etc. Eu ouvia, concordava, eu estava tão racional e equilibrada, porque na minha cabeça aquela realidade onde minha mãe havia falecido estava num mundo a parte, que eu ainda não ousava entrar. Eu fui para casa, escolhi uma roupa para vestirem minha mãe. Eu cheirei o frasco de perfume dela, eu liguei para a loja 32556486, ninguém atendeu. Voltei para o hospital, somente eu, a que estava equilibrada,desci até o necrotério para reconhecer o corpo e autorizar todo os demais procedimentos que faltavam.

Segurei na mão dela, fria, já perdendo a flexibilidade. Naquele vórtice de loucura me pareceu lógico que se eu conseguisse aquecer as mãos dela com o calor das minhas, ela voltaria. Olhei para a região do peito, e se ela de repente voltasse a respirar, se os médicos tivessem errado. Me lembrei das histórias das pessoas que era enterradas vivas antigamente, por conta de diagnóstico errado. Me lembrei de uma amiga que me contou que quando sua mãe faleceu, ela no necrotério ficou rezando e imaginou que por um milagre sua mãe havia ressussitado e voltado, ela comentou: eu parecia louca. A dor é uma estrada rápida para a loucura.

Foi uma noite longa o velório, eu sentia calafrios, eu sentia muito frio, não porque estivesse frio (realmente estava um pouco), mas era o frio causado quando nosso sistema nervoso autonomo sente que corremos algum perigo, e dispara adrenalina e outros neurotransmissores para nos preparar para a fuga. Eu queria fugir daquela realidade. Durante vários momentos eu ia até o caixão, segurava as maõs dela e tentava aquece-las. Ela iria para o quarto na semana seguinte e agora estava morta, onde foi que eu não soube ver o perigo e fazer algo que mudasse os acontecimentos? Eu repassava tudo, me culpava por não te-la trocado antes de hospital, me culpava por não ter dinheiro pra pagar melhores médicos, me culpava por ter discutido com ela 5 meses antes (foi uma dicussão boba, mas que havia tomado um peso enorme agora que tinha ido embora, no dia mesmo haviamos feito as pazes). Eu repassava os remédios que deram a ela, eu repassava os exames, como eu não percebi que a bexiga iria causar aqueles problemas (minha area é a odontologia, mas eu trabalhei em hospital, como não percebi?). Como rebobinar uma fita VHS eu voltava na minha cabeça os meses e tentava imaginar possiveis mudanças no passado que talvez, fossem capazes de alterar a realidade daquele dia. Mas o tempo e a morte estão além do nosso controle, não se volta ao passado, não se detém a morte. “Não terei preferencias para quando já não puder ter preferencias” Fernando Pessoa, num de seus poemas que eu e minha mãe gostávamos.

Foi somente quando o caixão foi abaixado e a terra colocado por cima é que eu tive certeza que era para sempre, antes disto eu ainda esperava sei lá o que, nada era de verdade, até que o caixão desceu. Voltamos pra casa do meu pai, naquele dia ninguém iria ao hospital, a espera pela saída da minha mãe do hospital havia terminado. No lugar da espera um vazio que não tinha nome.

Durante os meses que se seguiram eu continuei ligando para a loja, eu conversava com a minha irmã, mas aqueles segundos que o telefone chamavam, estes eram da minha mãe. 32556486. Eu casei, mudei de cidade. Eu nunca mais fui ao cemitério. Minha mãe não queria ser enterrada, sempre pediu para ser cremada, no dia em que faleceu meu pai não quis cremar e eu não tinha a menor vontade de brigar por aquilo naquela época. Eu tive uma filha. E quando minha filha nasceu eu chorei muito por não ter minha mãe por perto.

Ainda grávida fui assistir um filme japones chamado A Partida, que falava sobre um musico que ao perder emprego passa a trabalhar com a preparação dos corpos dos mortos para serem enterrados. Uma tradição no Japão, fazer os mortos parecerem o mais tranquilos e apresentáveis para a cremação. No filme o rapaz havia tido um pai que o abandonara ainda pequeno, sempre se lembrava de uma pedra que o pai havia lhe mostrado e contado sobre uma lenda de pedras que guardam um momento feliz, que guardavam memórias. Ele não perdoava o pai, até que no final foi chamado para um trabalho de um desconhecido, e ao chegar se depara com o corpo do pai, durante a preparação do corpo ele encontra na mão já sem vida do pai uma pequena pedra. Era a pedra do momento feliz que pai e filho haviam passado antes do pai ir embora.Ele se lembrou. Me lembrei da minha mae me dizendo que não tinha sido uma boa mãe. Chorei por muitos dias todo o choro que havia guardado.

Fomos morar na Argentina, cada café que eu passava eu lembrava da minha mãe, ela ia comigo a muitos daqueles cafés. Nao tive coragem de ir no Colombo, o mais famoso, também o mais cheio , também onde havia estado com ela. Tive medo que se entrasse lá e ela não estivesse, ela morreria de vez em alguma parte aqui dentro. Também quando passei por Porto Alegre não tive coragem de ir na Rua da Praia na confeitaria que ela me levava toda sexta-feira. Há lugares que são sagrados na memória e não podem ser revisitados em outros tempos.

Na Argentina ainda, resolvi voltar para terapia, muitas coisas esquecidas voltaram a memória, coisas não muito boas, tive raiva de muitos momentos da minha infancia, tive raiva da minha mãe. Foi a maneira que encontrei para me divorciar da realdiade em que ela não mais existia. Ela não estava lá para acertamos as pendencias, como ela pode fazer isto comigo? Não havia mais ninguém para ligar todos os dias, ela podia brincar com a neta, ela semrpe quis uma neta (não queria netos, ela queria uma menina), mas não… ela havia estragado tudo. A parte disso sempre levei comigo nas mudanças uma caixa que continha o perfume dela (o restinho que sobrou e eu nunca tive coragem de usar), uma blusa dela e algumas fotos. O pefume dela que sempre ficou horrivel em mim mas ficava tão estonteante nela. O perfume dela, ainda lembro do cheiro da minha maẽ quando ela me pegava no colo, o cheiro dela além do perfume.

Em julho agora complearam-se 8 anos da ausencia dela, e finalmente eu acho que fiz as pazes com isto, com o que foi deixado inacabado. Aceitei que nada que eu pudesse fazer mudaria o que aconteceu. A vida é um sopro, uma brisa. No momento em que termino este texto estou escutando Simon&Garfunkel.

Voce tambem pode ouvi-los mãe? Desta vez eu fui morar bem longe, voce ia achar bonito aqui, bem parado para o seu gosto. A Sophia está enorme e diferente do que voce previu sobre uma filha que eu teria, ela é um anjo perto de mim, nunca foi parar em hospital , nunca fugiu de casa, nunca se escondeu durante horas e diferente de mim fala sem parar, mas nas fotos é minha xerox de quando era pequena. Vc lembra daquele moço que te apresentei poucas semanas antes de voce ir para o hospital? Casei com ele, vc lembra que eu dizia que nunca ia casar…pois é. O Basquiat morreu mae, eu chorei muito. Eu tenho as cinzas dele numa pequena caixa que está vindo pra cá na mudança, quero jogar finalmente no mar. Eu moro perto da praia agora, vc morria de medo do mar, eu não. Voce tem visto a vó? Também sinto a falta dela. Seu número de telefone continua o mesmo? Posso te ligar ? talvez a diferença de fuso seja enorme e o telefone vai tocar muito cedo ou muito tarde, mas eu queria te contar sobre o meu dia. Eu nunca cozinhei aquele bolinho de batata, me mande a receita, eu ainda não acerto na escolha das batatas como você. Acho que no fundo fico esperando voce vir um dia em casa e cozinhar para mim.

beijos

da sua preta (sempre achei engraçado este apelido, visto que sou branca que nem leite)

 

mae

poesia

Miro o Universo que me mira

Portugues/English

Existem noites que são como vitrais

Um amontoado de pedaçinhos de vidros coloridos

Um quebra cabeça de peças que nem sempre se encaixam

Um mar, onde imagens do subconsciente flutuam

Emergem fotos aqui e acolá,

Misturadas à paisagem do dia anterior.

Um baile de miragens

Onde bailarinos de outros mundos saltam

Trazendo consigo suas mensagens

E então, as ondas batem com força contra as rochas

Formando imagens caleidoscópicas

E, quando despertamos o silencio é tão urgente.

No silencio colhemos todas estas peças que chegaram até a areia

Até que elas façam algum sentido.

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Some nights are like stained glass

A heap of colorful glass pieces

A puzzle of pieces that do not always fit

A sea, where images of the subconscious float

Pictures emerge here and there

Mixed to the  landscape from the day before

A dance of mirages

Where dancers from other worlds jump

Bringing their messages to you.

And then, the waves hit hard against the rocks,

Forming kaleidoscopic images

And when we wake up, the silence is so urgent.

In the silence we harvest all these pieces that reached the sand

Until they make some sense.

 

andre2
Andre Chénier, Bregenz, Austria
poesia

Le rencontre des eaux

Acendi uma vela e a cravei sobre a neve

Esperei por longas noites e muitas vidas

E cuidei para que a chama queimasse

Cantei sortilégios antigos

Conjurei deuses inventados e malditos

Até que a neve se transmutou em primavera

E voce , tal qual um rio

Fluiu até meus lábios,

Inundou minha garganta

E fiz do teu gosto em mim

Nossa eternidade.

Em tuas águas escuras eu caminho.

pes
feet

 

 

 

sobre a vida

A porta

 

Portuguese/English

“Traga todo seu Eu para sua porta.

Trazendo apenas uma parte,

Voce não trouxe nada.”

(Hakim Sanai)

Há tempos venho me questionando sobre os verdadeiros laços e de que eles são formados? Quando eu decidi que vinha morar na Nova Zelandia, longe de todos que eu conhecia, eu sabia que boa parte das minhas amizades terminaria no momento que o avião partisse. E mesmo podendo me conectar via mídias sociais, eu sei que alguns laços acabarão com o tempo.

Então, sobre aqueles laços que não se rompem nunca ou pelo menos não tão facilmente, de que são feitos? Creio que são feitos quando a essencia verdadeira de uma pessoa se conecta com a essencia verdadeira de outra pessoa. Quando olhamos nos olhos do outros, ainda que virtualmente, mas sem mascaras. Não precisamos vestir uma roupa que não é nossa, fingir comportamentos que não são nossos, estamos desnudos. Neste momento nos conectamos com a verdadeira Beleza e é impossivel não se apaixonar quando isto acontece. Nossa essência é algo como o Divino em nós, pois traz consigo o que há de mais verdadeiro e belo. E quando voce se conecta a verdadeira essência de outra pessoa, não importa o que ela veste, o carro que ela dirige, ou mesmo ela não ter carro, ou sua profissão, ou se tem dias ruins, ou se ela passa um longo tempo em silêncio, ou mesmo longe. Sempre haverá o respeito, a compreensão. Estes laços são difíceis de romper. São aquelas pessoas que mesmo passados anos quando se encontram é como se nunca tivessem se separado, e talvez nunca o fizeram de fato, os laços verdadeiros são como teias invisíveis.

E aí vem outro questionamento. Por que usamos tantas máscaras? Por que nos privamos de experiências tão gratificantes? O que nos machucou tanto a ponto de perdemos uma vida construindo muros ao invés de criar laços? Cada um de nós tem um profundo instinto para esconder sua essencia. Nos sentimos protegidos quando escondemos. Não ser visto é seguro. Este é o propósito do Ego; criamos uma máscara social por detrás da qual nos escondemos. Nós reunimos nossas experiências num conjunto de narrativas e apresentamos esta criaçao de patchwork ao mundo, dizendo: “Este sou eu. Não procure mais nada”. A formação e a modificação desta mascára do ego torna-se o principal trabalho da maioria de nossas vidas, e também esquecemos facilmente que não somos esta máscara, que , de fato, somos muito maiores e menos facilmente definidos. O ato de se esconder torna-se institucionalizado na consciência.

Por esta razão precisamos descobrir por que escondemos e se queremos continuar escondendo. Muitas vezes a manutençao desta máscara é tão dolorosa que não vale a pena. Muitas vezes a manutenção das máscaras se torna emocionalmente tóxica. A plenitude do que somos é muito maior quequalquer história pura onde queremos empacotar tudo. Não podemos truncar partes de nós mesmos para forçar um encaixe confortável na narrativa que queremos dizer a nós mesmos. Devemos morar na nossa totalidade. Devemos reivindicar nossa história, todos nossos sentimentos e pensamentos, o doloroso e o celestial juntos.

E então, vamos até o limiar. Hesitantes, nus, vulneráveis até esta porta da nosso verdadeiro Eu. É quando a magia acontece. A coleção grande e pesada de vitórias e feridas que trouxemos conosco vem se concentrar pela primeira vez e temos uma visão de nós mesmos, todo nosso ser, vivo intenso, integral dentro do universo imenso vivo. O que nós hesitamos ver em nós mesmo se torna uma imagem de Beleza e, sim, a  felicidade majestosa se derrete e se mistura com a majestosa beleza ao nosso redor.

Todos nós desejamos este encontro precisamente para curar a profunda dor da separação. Se chegarmos com menos de todos seres, se chegarmos apenas com fragmentos de nosso ser, como podemos encontrar a cura?

Traga todo seu Eu para sua porta.

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“Bring all of yourself to his door:

bring only a part,

and you’ve brought nothing at all”

(Hakin Sanai)

I have been questioning myself for a long time about the true bonds and what they are made of ? When I decided to live in New Zealand, far from every friend/family that i had, I knew that most of my friendships would end the moment the plane left. And even though I can connect via social media, I know that some bonds will end in a few time.

So, about those bonds that never break, or at least not so easily, what are they made of ? I believe they are made when the true essence of a person connects with the true essence of another person. When we look into the eyes of others, although virtually, but without masks. We do not have to wear clothes that are not ours, pretend to act with behaviors that are not ours, we are naked. At this moment we connect with the true Beauty and it is impossible not to fall in love when this happens. Our essence is something like the Divine in us, because it brings with it the most true and beautiful that exists. And when you connect the true essence of another person, no matter what they wear, the car they drive, or even they do not have a car, or their profession, or if they have bad days, or if they  spend a long time in Silence, or even far away. There always will be respect, understanding. These kind of bonds are difficult to break. They are those people who, even though they have been apart for years, it was as if they had never separated , true bonds are like invisible webs.

And here comes another questioning. Why do we use so many masks? Why do we deprive ourselves of such gratifying experiences? What has hurt us so much that we have lost our lives building walls instead of creating bonds? We each have a deep seated instinct to hide. We feel protected when we hide. To not be seen is to be safe. This is the entire purpose of the ego; we created a social mask behind we hide ourselves. We gather our experiences, stitch them together with a narrative, and present that patchwork creation to the world, saying: “This is me. Don’t look any futher”. The formulation and modification of this ego-mask becomes the primary work of most of our lives, ans we too easily forget that we are not that mask, that we are, in fact, something much more bigger ans less easily defined. The act of hiding becomes institutionalizes in the awareness.

For this reason we need to find out why we hide and if we want to continue hiding. Often the maintenance of this mask is so painful that it is not worth it. Often keeping masks becomes emotionally toxic. The fulness of all that we are is much bigger than any neat story we want to pack it all into. We can’t truncate parts of ourselves to force a snug fit into the story we want to tell ourselves. We must dwell in our entirety. Anything else becomes self-dismemberment. We must claim all of our history, all our feelings and thoughts, the painful and the celestial all together.

And then we step up to the threshold. Hesitant, naked, vulnerable, we step up to this door of our true Self. That’s when the magic happens. The large, unwieldy collection of victories and wounds we’ve brought with us comes into focus for the first time and we have a vision of ourselves, our whole selves, alive and immense, integral within the living immense universe. That which we were hesitant to look at within ourselves becomes an image of beauty and, yes, majesty blissfully melting into the majestic Beauty all around us.

 We all, on some level, crave this encounter precisely in order to heal the deep pain of separation. If we come with less than our whole selves, if we come with only fragments of our being, how then can we find healing?

Bring all of yourself to his door