The phoenix must burn to emerge

Bem, já devia ter escrito isto há muito tempo. Foram anos olhando para o outro lado para não sentir toda a dor, foi um ano de terapia, foram muitas outras dores vividas, muito tempo se passou, muita reflexão. Quero contar sobre o motivo real pelo qual eu resolvi fazer um blog. Logo que conheci meu marido, ele comentou:” vc devia escrever, quem sabe colocar para fora nao ajudaria?” Pois bem, criei o blog, escrevi, escrevi , mil coisas, umas minhas, outras copias de poesias, coloquei muita coisa que eu gostava, mas colocar para fora o que me doia..muito pouco. Por que? pq a maior de todas as dores ,também era para mim, motivo de grande vergonha, eu não entendia direito ainda muitas coisas, preferia não lembrar, fingir que tudo tinha acontecido numa dimensao paralela, com outro eu. Fui vivendo aos poucos, aos poucos lembrando e digerindo. Muita raiva, ódio, revolta…

Em 2005, eu estava muito perdida, minha vida profissional, apesar de varios cursos , um curriculo invejavel, nao ia bem. Eu trampava feito louca, e nao tinha dinheiro muitas vezes pra pagar as contas do consultorio. A situação na casa dos meus pais, um inferno, brigas mil o tempo inteiro. E minha vida amorosa , uma sucessão de relacionamentos problematicos, uma confusao dos diabos. Eu não estava feliz definitivamente. Tudo o que eu queria era um cavaleiro numa armadura reluzente que viesse me salvar, eu já não tinha mais forças. E este foi meu maior erro, eu estava tão cega que acreditei em qq coisa.

Foi entao que conheci, aquele que eu classifico o pior ser que conheci na vida. No começo, era super bonzinho, prestativo, deixava claro que queria me ajudar, que traria a lua se eu pedisse. Bem, entendam que um cara , publicitario, mais do que ninguem sabe como fazer uma boa propaganda enganosa. E eu acreditei. Eu queria acreditar, pq era melhor do que viver minha vida infeliz.

Namoramos cerca de uns 8 meses, e fui morar com ele. Tinhamos nossas brigas, ele era muito ciumento, mas achei que isto iria melhorar. Mas não, o ciumes que no começo eu até achava engraçadinho, virou uma obsessao, virou ciumes ate da minha familia, amigas, até mesmo de meu cahcorro. No inicio eu havia percebido que, as vezes, ele era bem agressivo com pessoas na rua, mas achei que era stress, sei la. Depois as agressoes se viraram contra mim. Começou com xingamentos, agressões verbais cada vez piores e mais violentas. Meses depois que me mudei começaram as brigas em que ele quebrava objetos em casa e me xingava, comecei a ter medo. Eu estava tão confusa, que não sabia o que fazer, nao queria ficar lá, não queria voltar pra casa dos meus pais, nao tinha grana pra ir morar sozinha. Arranjei um emprego melhor, mas as brigas nossas me deixavam louca, muitas vezes ele me ligava dizendo que ia se matar se eu nao falasse com ele, eu saia das reunioes, começou a ficar chato. Ele largou o emprego pra ficar em casa, ia trabalhar por conta. Tinha mil planos. Falava de um jeito como se precisasse de mim para apoia-lo, ajuda-lo em tudo. Disse que ia mudar, etc, etc. Eu acreditei.

Neste meio tempo tb começou a trazer o filho para passar os finais de semana conosco. Ai as coisas ficaram ruins de vez, ele nao cuidava do moleque, eu que ja estava exausta com 2 empregos, tinha que servir de baba. Comecei a reclamar. Novas brigas. Eu ja nem sabia pq ele brigava, era por tudo, era por nada, ele queria alguem cuidando dele, o mimando, agradando full time. Os ciumes pioraram, a ponto dele nao deixar que eu visitasse minha mae no hospital. Ai foi demais, tivemos uma mega briga e ele me agrediu, foi um soco no braço. Pediu mil desculpas, disse que nunca mais faria isso. Mentira…desde então perdi as contas de qtas vezes ele me agrediu, pelo menos uma vez por mes ficava marcada nos braços ou no rosto. Ele passou a me ameaçar, a ameaçar minha familia, dizia que conhecia traficantes e que se eu fugisse, ele ia mandar fazer coisas comigo, minha irma e iria matar meus pais.

Ele passava a noite usando drogas e jogando videogame, dormia o dia todo, eu só podia sair pra trabalhar. O pai dele pagava o aluguel, as contas do carro dele, eu pagava luz, telefone,mercado. Eu tinha muito medo de sair de la. Ele deu veneno de rato para meu cachorro, consegui salva-lo a tempo, mas tive que deixa-lo com meus pais, nao podia confiar naquele psicopata. Entao me vi sozinha, sem meu ultimo amigo(meu cachorro), nao tinha coragem de falar pra ninguem o que estava acontecendo. Tinha medo, vergonha.

Uma tristeza tão grande tomou conta de mim, eu dormia e sonhava que nao acordaria mais, perdi a fé em tudo, abandonei o trabalho voluntario que fazia, deixei de acreditar em deus desde entao. Eu vivia com medo de falar ou fazer algo que me rendesse uma surra. Foram meses cujo meu unico desejo era morrer. A obsessao dele por mim só aumentava, era enlouquecedor,eu tinha que ver todos os trabalhos dele, se eu nao visse e o cliente nao aceitasse, ele surtava. Depois do surto se trancava no quarto e machucava os pes até mal poder andar. Ele era obcecado por pés, tinha mil fotos dos meus pés, dizia que eram os mais lindos do mundo, era doentio demais. ele acreditava que eu tinha poderes, que dava sorte para a vida profissional dele. Eu tinha medo de  dormir, dormia (qdo dormia) pq estava exausta. Varias vezes ele me acordava quebrando as coisas no quarto, me ameaçando, eu nem sabia o por quê. Tinha muito medo que ele me machucasse enqto dormia. Meus dias e noites eram sombrios, eu vivi a longa estação da amargura. Era como se para mim o tempo não passasse, eu girava em circulos em torno de um nucleo de sofrimento, não via saida, não tinha forças.

Houve um tempo que eu acreditei que poderia salva-lo, que ele precisava de alguem que o ajudasse, ele vendeu bem esta ideia. Ele sempre soube usar o meu ponto mais fraco: ajudar o proximo. Mas depois de tudo, percebi que ele não queria minha ajuda, ele queria se fazer de vtima para todo e qualquer bom cristao , de quem ele pudesse sugar alguma coisa. Ele vivia de explorar pessoas, seja materialmente, psicologicamente, roubando ideias de outros e colocando como se fossem dele. Ele era vil, mentiroso. nem do proprio filho gostava, usava o menino para agradar ao pai e continuar recebendo sua mesada. Uma vez ele mesmo chegou a me falar que o o filho dele foi um dos piores erros da vida dele. O menino era um doce, uma criança amavel. Ele só falava que amava o moleque se tivesse plateia, pq longe de quem interessava, ignorava o menino, quem cuidava era eu.

No final de 2007, eu tive uma crise de estafa nervosa, tive sindrome do panico e tive que procurar uma psiquiatra. Fiz uma unica consulta, o preço da mulher era tao caro que nao ia rolar. Mas em uma unica sessao, ela me fez uma pergunta que ficou na minha cabeça: pq vc tem se privado de tudo  o que faz vc feliz? voce nao se acha merecedora disto? Naquele ano, passei natal e final de ano sozinha.

E  2008 chegou, eu decidi que nao podia ficar daquele jeito, tivemos uma conversa e eu cheguei mesmo a falar: ok se quiser me matar, faça logo, pq eu já morri por dentro, mande matar quem vc quiser, eu queria me matar. Cheguei mesmo a fazer uma receita com medicações que uma vez misturadas seriam fatais, eu tinha acesso a estes receituarios, eu receitava para pacientes. Entao ele implorou para que eu ficasse, prometeu procurar tratamento, e tentou se matar …eu fiquei sem chao. Me senti pessima, disse que ficaria mais um tempo, no fundo do meu coração eu nao queria ficar. Ele foi procurar mesmo uma psiquiatra, começou o tratamento e realmente ficou mais calmo. Ai chegaram minhas ferias, depois de algumas discussoes, comprei um pacote para o Peru e fui sozinha. La , tive tempo para refletir sobre minha vida, era a primeira vez que conseguia respirar em anos, eu dormi sem ter medo de alguem que me matar ou agredir. Foi entao que eu percebi, o quao fundo eu tinha descido, que insanidade era aquela que eu estava vivendo??

Voltei da viagem decidida a terminar. Logo que cheguei, telefonei para a psiquiatra dele, nao queria que ele tentsse fazer alguma merda, fingi q ele era meu paciente, foi entao que descobri: ele me disse que ela o diagnsoticara como bipolar(dai suas crises), mas na verdade ela me disse que ele era um psicopata, e era violento. Eu gelei, como sairia de la? Comecei a tirar minhas coisas de casa durante o dia, ja que ele passava noites jogando videogame e usando sei la o que, de dia ele apagava, e eu podia encher meu carro e assim fui levando as coisas pra casa dos meus pais. Faltando poucas coisas para levar, tivemos uma mega discussao, e desta vez ele me agrediu de uma maneira que eu achei que iria morrer, nao sei até hj como consegui escapar, ele tentou bater minha cabeça contra a parede, se tivesse conseguido, nao sei se estaria viva. Ele me derrubou no chao com um soco e continuou me batendo. depois sumiu com a chave da entrada do apartamento, desligou o telefone e se trancou num quarto, foi a pior noite da minha vida, achei que ele iria me matar.

Assim que ele acordou, me implorou desculpas, como sempre o teatrinho do pscicopata. Ele me deixou sair para trabalhar. nao sabia como iria fazer, no mesmo dia liguei e disse que teria que viajar a trabalho , entao numa quinta feira, retirei o que deu das minhas coisas, e fui embora. Nunca mais voltei.

Nao fui a policia, devia ter ido, hoje me arrpendo mais do que nunca.

Nao descrevi todas as brigas e nem entrei em detalhes, seria me alongar demais, ja vivi isto dentro de mim milhoes de vezes.

Ele me perseguiu durante muito tempo, durante muito tempo tive medo de encontra-lo na rua.

Hoje sou mais forte com certeza, e depois de anos repassando o que aconteceu, posso afirmar que nao fui destruida. Eu renasci, precisei morrer, assim como a Fenix, eu me queimei ate minha extinção, até virar cinzas, e de minhas cinzas renasceu uma ave mais forte, mais bela. Hoje eu sei que ninguem pode me destruir. Hoje finalmente eu percebi meu dom, meu poder. Foram longas decadas negando este poder, fugindo. Nao , eu nao sou alguem comum, sou rara e nao tenho motivos para nao andar com minha cabeça erguida. Percebi que eu não tenho que ter vergonha, quem agride o seu proximo sim deve envergonhar-se, quem abusa da bondade de um coração puro é que deve queimar de vergonha.

Doente, fraco, infeliz, tudo isso era  aquela criatura. Como uma criança de mente limitada que nao sabe o que fazer comum brinquedo complexo, como um ser simplorio que se sente intimidado com algo demasiado belo, preferiu destroçar o que não entendia. Foi o que aconteceu. Tendo se apossado da minha vida, não sabia o que fazer com ela. E nem poderia. Ela era demasiado maravilhosa, reluzente para que pudesse entende-la. Podia ter me deixado escapar, mas voluntarioso como era, preferiu  me destroçar, minha luz sempre foi um incomodo, uma lembrança perene da sua mediocridade.

Finalmente me libertei de toda tristeza, foram longos anos, muitos deles guardando tudo só para mim.  Tive um cancer , tive muito medo, mas passou. Hoje estou livre. Meu batismo de fogo já  passou.

Eu renasci com a força daqueles que já passaram pelo inferno. Algo aqui dentro mudou. Foi um longo parto. O medo se foi, sao 3 da manha e pela primeira vez em decadas, nao sinto mais medo no meu coração. Escrever faz bem, lava a alma.

“A bridge of silver wings stretches from the dead ashes of an unforgiving nightmare
to the jeweled vision of a life started anew.”

Aberjhani (The River of Winged Dreams)

4 comentários sobre “The phoenix must burn to emerge

  1. Cheguei meio que sem querer no teu blog…
    Fiquei impressionado pela sua força nesta história triste, mas parece com final feliz.
    Parabéns por ter vencindo este enorme obstáculo na tua vida.
    Felicidades, paz e sorte para o seu futuro.

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