Deixou o bebe numa sacola, ninguem quis saber dela, e de verdade, nem do bebe

Muitos dedos para apontar, poucas mãos para ajudar. O bebe abandonado em uma sacola por todos nós.

Meus 2 cents sobre o assunto. texto meu escrito para Artemis, ONG na qual escrevo para a pagina do Facebook.

Tem circulado a notícia de uma mãe que abandonou o seu bebe numa sacola. Não preciso dizer que boa parte da sociedade esta revoltada, cheia de ódio por esta “mulher sem coração que abandona um filho”. Porém, alguém quis saber quem é esta mulher de verdade? quais são seus medos, como foi sua criação, como se formou sua personalidade, o que ela sonha, o que ela teme, em qual realidade ela está inserida, onde está o pai, por que não a esta apoiando?? Não, ne?? Pouquissimos ousariam ir tão longe, porque ir tão longe significa exercitar um olhar compassivo, praticar a empatia e uma vez que voce entra por este caminho não pode mais virar as costas para os que precisam e fingir que não é com voce. Exercitar a empatia neste caso, significa arregaçar as mangas e colocar as mãos para trabalhar, e não arranjar desculas, não se esconder atras de julgamentos cruéis para justificar sua não ação, a sua negativa em estender a mão , ou ao menos um olhar amoroso para alguém que está desesperado, que errou, que caiu. Se voce não pode ajudar, ou não quer, ao menos abstenha-se de julgar sem saber os fatos, TODOS os fatos, porque julgar sem saber ao menos boa parte da história é ser leviano.

Nas notícias que fui pesquisar vi imagens de uma mulher tratada como uma criminosa, uma mulher tratada com violencia. Lendo a história começo a juntar alguns pedacinhos da história. Ela escondeu a gravidez de seus patrões por medo de perder o emprego. Imaginem voces, com gravidez planejadas, fazendo quartinho do bebe, chá de bebe, marido indo junto no ultrassom, que lindo nao?? Ela apenas tinha medo de perder sua única fonte de sustento, uma gravidez ocultada por 9 meses,com um pai que a abandonou ela e a criança(como uma pai faz isso ninguem pergunta ne?), com medo, sem direito a desejos de grávida, nem quartinho de bebe, nem roupinhas trazidas dos USA, nada, apenas o medo, o abandono, a solidão.

O bebe nasce, numa maternidade? num parto domiciliar planejado, com direito a sequencia de musiquinahs, etc?? Não, o bebe nasce na casa da patroa que não podia saber que ela teria este filho, sem direito a ter tempo no peito da mãe, aconchego. Só medo, solidão, abandono e um coquetel de hormonios do puerpério, que só quem passou por isso sabe como são capazes de mexer com nossas emoções.Alguns dos comentários que li nas notícias:

1.”ah mas abriu as pernas porquê??” pelo mesmo motivo que nós abrimos as nossas pernas tantas vezes na vida, por amor, por tesão, porque sexo é bom demais, porque somos humanas e temos desejos.Voces não transam por prazer, só pra procriar…é isto? E de boa, nem sabemos se no caso a relação para ela foi consensual. Só não julguem se não sabem da história.
2. “Por que ela não se cuidou??”, minhas queridas(os) nenhum método anticoncepcional é 100%, e o pai, por que não usou camisinha?? Não passa pela cabeça de voces que o homem tem 50% da responsabilidade também?? Voces saem por ai transando com desconhecidos sem camisinhas?? Ja fizeram isto ao menos uma vez?? Ou são todas super controladas, sempre precavidas??Parabens super pessoas perfeitas!!! Porque eu já transei sem camisinha, eu ,da área de saúde, pessoa super esclarecida e me arrependi, morri de medo, por sorte não engravidei, não peguei nenhuma doença, por sorte…Mas já aconteceu nesta minha vida não perfeita
3. ” Ela acha o trabalho mais importante que o filho”. Acho que poucas pessoas que leem esta pagina sabem o que é passar necessidade, real necessidade, de não saber se vai ter o que comer no outro dia, na proxima semana. Esta mulher já tem uma filha de 3 anos, vem de uma condição socio-economica muito baixa,se perdesse o emprego o que seria desta criança?? Convido a todos os grandes juizes que fariam muito diferente, e fariam muito melhor a passar 3 meses com 1 dolar ao dia, cerca de 1 bilhão de pessoas vivem assim no mundo hoje. Voces precisam ir mais a periferia, as favelas, falar com moradores de rua, voces não tem idéia do que é viver assim, nesta pobreza sem perspectiva. É a luta pela sobrevivencia como nenhum programa do Discovery vai mostrar para voces. Não julguem uma realidade que nunca foi a nossa, nem de perto. E nem me venham com a máxima de que : “gente que ganha isso não trabalha” vão trabalhar as famosas Minas de Potosí, houve uma época que de cada 10 trabalhadores que lá entravam só 3 saiam vivos, trabalhavam mais de 16 horas por dia, numa temperatura de 40°C e ao sair da mina encontravam um frio andino, morriam de doenças, porcontaminaçao de mercurio. Sim, eles trabalharam muito, e nunca ficaram ricos, a maioria morreu…
4. “depressão pos parto virou desculpa para qualquer coisa”. Não fale sobre o que não tem conhecimento, informem-se e se for o caso, calem-se , é melhor que vomitar besteiras, a internet já tem o suficiente de “mestres” nos mais variados assuntos falando bobagens. Eu tive depressão pós parto e não desejo a ninguém isto. Por sorte, eu da área de saúde pude identificar muito rapidamente e procurar ajuda. Eu tive uma cesarea contra minha vontade, que já foi de uma violencia absurda, do que me lembro do nascimento da minha filha: eu nua, amarrada numa cama, frio, e escutando minha bebe chorar ao longe, eu devia estar cuidando dela, nao autorizei varios procedimentos que fizeram nela, mas eu estava amarrada. Já nas primeiras horas eu,que deveria defende-la e cuida-la, falhei. Mas achei que sanaria toda aquela nossa separação, a nossa dor com a amamentação. Pois bem, meu leite não descia, minha filha perdeu muito peso, a médica não soube me orientar e entramos com leite artificial. Eu, da área de saúde, que era ferranha defensora do aleitamento materno, sofri horrores. A cada mamadeira, minha bebe ganhava peso e eu uma facada no coração. Eu chorava todo o tempo, olhava e pensava: eu não consegui parir, não consegui amamentar, nem sei faze-la parar de chorar, se eu for embora ela será mais feliz sem mim, porque eu não sirvo pra nada aqui. Sim , eu pensei isso, me senti uma criatura tão descartável, tão inútil. Eu tive uma gravidez planejada, com direito a quaritnho de bebe super planejado e carésimo, enxoval de varias partes do mundo, muitos presentes, eu tinha uma empregada, um marido amoroso, uma sogra querida que me fez comida pra eu nao precisar cozinhar no primeiro mes todo, tenho uma ótima condição sócio-economica, cultural e mesmo assim eu pensei em ir embora. Eu não via onde poderia me encaixar…eu achava que eu não estava servindo para nada , olhava minha empregada, que me deu uma super mão, muito carinhosa com minha filha e pensava: “acho que se ficar com minha bebe será uma mãe melhor”. Eu não amava minha filha?? Amava sim e muito, amava tanto e amo tanto que morreria por ela, e naquela hora de depressão tão profunda, com aquela bagunça hormonal, para mim parecia sensato dar minha filha para quem pudesse cuidar, e esta pessoa não era eu. Só que diferente desta pobre mulher, eu tive apoio, eu fiz terapia, eu tinha grana. Percebi que sim ,podia ser um ótima mãe, fui atras de especialistas e consegui amamentar. Eu larguei meus dois empregos para ficar em casa e tentar sanar este começo tão turbulento. Eu pude fazer isso sem me preocupar com grana, numa casa legal, com empregada todos os dias, bons pediatras, tudo o que eu poderia desejar. E mesmo com tudo a mão não foi facil me livrar da depressão pós parto, foram dois longos anos.
5. “Tá com pena leva para casa”. eu queria poder mesmo leva-la para casa, abraça-la com o amor que talvez ela nunca tenha recebido na vida. Toda mulher é minha irmã. Queria poder abraça-la e dizer que ia ficar tudo bem , que de alguma forma iamos dar um jeito e que ela pdoeria criar suas duas filhas em paz, com a tranquilidade de nada faltaria a elas, que elas iriam ao parque toda tarde brincar , que teriam comida farta a mesa todos os dias, uma cama limpa e confortavel. Queria juntar os pedacinhos desta mulher que só conheceu o abandono a vida toda e criar uma nova mulher a partir destes pedacinhos, uma mulher mais forte, que soubesse que é amada, uma mulher que tivesse muitas irmãs para apoia-la, que nunca mais ficasse sozinha.

Então, peço de todo coração, não julguem esta mulher como criminosa, voces não sabem o que passa no coração dela. Cada uma de npos tem uma história, permeada de coisas boas e ruins, mas para algumas de nós há mais momentos ruins. Ao invés de julgar por que não nos unimos para ajuda-la?? Sim, óbvio que isto dá mais trabalho, mas se queremos um mundo melhor nós temos que faze-lo real e não será com julgamentos rasos que este mundo nascerá, e sim atraves do exercicio incansável da empatia de nós para com os outros, do exercício incansável de nosso auto-aprimoramento e não menos importante da nossa capacidade de questionar. Questionar por que os jornais veiculam a culpa só da mulher, onde estava o pai deste bebe??Questionar por que uma mulher tem que trabalhar com medo de engravidar? questionar por que uma mãe mesmo trabalhando mal consegue se sustentar e sustentar a uma filha? Questionar por que somos tão cruéis com os que mais precisam? De onde vem esta violencia ? Por que sempre atacamos, por que sempre apontamos dedos e nunca nos damos as mãos?? Por que é tão dificil acolher?

“Por detrás da alegria e do riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a dor não usa máscara”
” Há feridas que não cicatrizam nunca, e sangram sód evoce olhar para elas” ( trechos de De Profundis de Oscar Wilde)

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