Hamlet é anti-facebook

 

Segundo o historiador, somos cada vez mais solitários porque temos cada vez mais dificuldade em estabelecer algo orgânico e significativo com o mundo. Na peça de Shakespeare, o príncipe se questiona o tempo todo. Hamlet pergunta à caveira diante da morte inevitável: “quem eu sou de verdade? Quem sou eu que preciso estar presente em tantos personagens? Por que preciso que tanta gente me veja?”. A pergunta se estende à plateia: o que somos de verdade com ou sem o apoio da igreja, da família e de outras instituições para as quais estamos sempre cumprindo papéis? “Se a família te apoiar ou te criticar, você continuará sozinho”, diz Karnal.

Para o historiador, a fala reflexiva de Hamlet desapareceu no mundo contemporâneo. “Quando penso no que estou dizendo, digo menos, porque é mais significativo. O restaurante por quilo é uma maravilha. Mas restringiu todos os alimentos ao mesmo sabor. Quando não tenho sabor nas coisas que eu vivo e faço, eu multiplico as coisas que vivo e faço. Eu não suporto ficar em casa comigo mesmo. Por isso preciso viajar o tempo todo. Prefiro o caos do aeroporto ao silêncio de casa.”

Essa ausência de consciência, segundo ele, é observada diante do medo de encarar a morte como um caminho inevitável. “A sabedoria é a preparação para dar sentido à vida de quem morre. A vida, sem a morte, seria insuportável. Como não aceitamos o envelhecimento, criamos crianças que devem viver uma infância cada vez mais longa e protegida. Mas é bom dizer às crianças que elas precisam deixar de ser crianças.”

Para fugir deste encontro, no entanto, as pessoas seguem encenando. Preferem se sentir vigiadas a se sentirem sozinhas. Preferem a crítica ao abandono. “Quem eu seria se eu estivesse absolutamente só no mundo? Resposta: seremos solitários com outros solitários.”

“Quanto mais escrevo ‘KKK’ no Facebook, mais estou triste. Preciso que o mundo ‘curta’ a vida que acho insuportável. Da mesma forma, precisamos de hospício para imaginar que, estando fora, não somos loucos.”

Para Karnal, o que Hamlet nos diz é: só interpretamos cenas, etiquetas e formalidades porque não aguentamos saber que todos fazem parte de um teatro. Hamlet, lembrou o palestrante, não governou seu reino. Ele foi o primeiro homem livre. O primeiro homem moderno. E pagou um preço altíssimo por isso.

“Tente descobrir vagamente quem você é. Você não será feliz. Mas sua consciência o impedirá a ser vazio. E você não precisará postar o tempo todo na internet.”

Segundo o palestrante, vivemos hoje um momento de pura burrice argumentativa. “A nossa capacidade de ouvir está muito baixa. Quando não quero ouvir, a solução é a guerra civil. Há quem defenda: ‘vamos dividir o país’. A primeira condição da política é o diálogo. O seu ódio do outro é o seu medo de si. O diálogo nos humaniza.”

 

 

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