Minha mãe

 

A foto que eu queria colocar onde estou com minha mãe, não está no celular, alias ela esta num quadro no meu antigo quarto, na casa que era dos meus pais. É minha foto preferida, uma foto em branco e preto, parecemos personagens saído de um filme da década de 40. Minha mãe esta luminosa sorrindo. É como me remeter a um espaço-tempo que não existe, meu portal para o cinema antigo das tardes de domingo.

Minha mãe faleceu fazem alguns anos, não pode conhecer sua neta, senti uma falta danada dela quando Sophia nasceu. Tinhámos muitas diferenças, mas conversávamos todos os dias ainda que, por telefone, eu adorava conversar com ela. Minha mãe errou, acertou, foi humana. Os médicos dizem que morreu por conta de um problema no pulmão. Para mim morreu de tristeza, de desgosto, afogada, sufoca pela realidade.

Das lembranças que eu guardo dela são seus sonhos, ela sonhava em ser arqueóloga e viajar o mundo. Fez faculdade de História e desistiu de tudo isto para se encaixar numa “vida normal”. Uma vez me confessou que não queria ter tido filhos, que não servia para isto. E era verdade, ela era fantástica para conversar, um coração do tamanho do mundo, muito amorosa,mas nunca coube no papel de mulher convencional. No fundo sempre havia aquela tristeza de não ter vivido o que sonhou. A energia que ela gastava pra manter isto a esgotava.

Talvez por isso nos incentivasse tanto a seguirmos nosso caminho, quando tive minha fase gótica, punk, depois mudei , e mudei de novo, quis estudar algo de humanas, troquei por odontologia, quando minha irmã disse que não queria ser dentista como eu e ia ser artista, ela nunca disse não. Apenas nos apoiava da melhor maneira que podia. Seu maior legado foi nos apoiar ainda que estivéssemos totalmente contra corrente.

No final da vida, minha mãe fumava sem parar, um dia me disse que estava cansada de tudo. Nunca explicou o que era o “tudo”, mas eu sabia. Estava cansada de ter tido uma vida convencional e por tanto tentar se adaptar adoeceu. Nossa sociedade convencional é muito doente, tentar fazer parte quando se tem o minimo de pensamento critico é suicidio. Eu tinha esperança que no final, ela ia criar coragem e largar tudo, familia, casa e sair pelo mundo. Eu ia sentir saudades, mas também ficaria feliz por ela. Nunca entendi esta escolha dela, mas uma parte de mim torcia todos os dias para receber um telefonema dizendo: olha, sua mae sumiu de casa, ninguém sabe onde ela foi, eu riria e esperaria ansiosa um cartão postal de um lugar exótico.

Depois da morte dela encontrei num livro dela uma carta pra mim, que falava de um mundo sonhado para mim, um mundo anarco-socialista, encontrei poesias que ela escrevia, poesias lindas. Guardo tudo numa caixinha, sua carta, seus poemas, um frasco com um restinho do perfume dela , que eu cheiro de vez em quando, um batom vermelho usado(ela ficava absolutamente fantástica de batom vermelho), algumas fotos das passeatas estudantis dela contra a ditadura. São fragmentos da vida que ela sonhou um dia, as partes dela, se é que posso chamar assim, que não foram adaptadas a vida convencional.

Ainda espero o postal de um lugar exótico que vira de uma realidade paralela.

Ela adorava Mercedes Sosa. E sempre dizia que antes de tudo, deviamos ser livres, um discurso tão diferente da vida que ela vivia. Não sei o motivo das escolhas dela, já julguei muito, já tive raiva, pena, tristeza, agora apenas aceito. Esta musica em especial sempre me lembra dela, uma de suas prediletas. Mercedes escreveu esta musica para seu filho.

Como un pájaro libre de libre vuelo,
Como un pájaro libre 

 

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