Os pequenos cacos e suas estórias

Quando  olho para tantos cacos meus espalhados por ai

vejo que alguns nao serão recuperados nunca mais

não farão parte da restauração, se perderam.

Já outros foram desgastados pelo tempo que não se encaixam mais,

não se encaixam em mais nada.

Outros se enfiaram na carne de modo que,

ao tentar retira-los a dor é insuportável.

Alguns são feios, grotescos, nebulosos

Outros tem sua beleza,

uma beleza que apareceu depois do estilhaçamento.

Sentada na sala, apenas olho perplexa este quebra-cabeça.

Há dias que quase posso crer que ele será refeito

Em outros, uma desesperança me transborda

Já nem tenho certeza se todos os cacos são meus.

Em dias como  de hoje, que estou doente

e não posso preencher o dia com atividades mil

esquecendo dos cacos ali no chão,

como uma criança que ainda crê em contos de fada

desejo de todo coração que minha avó venha me cuidar.

Ou alguma criatura saída de uma dimensão que nem imagino

Ela se sentaria a beira da cama, sem pressa, apenas estaria ali

Sem vontade de estar em outro lugar, sem pensamentos para  outras coisas

Sem vontade de fugir, de ir cuidar sei lá do que

Um ser capaz de olhar meu eu,  um ser cujo poder magico,

É me recordar da minha imagem original.

Aquela que serviria de guia para o quebra-cabeças

A imagem pura, a imagem sem os retoques

Sem o ter que fazer/ser para agradar

Sem as projeções dos outros

Sem os que os outros esperam de mim

Pois parece haver até uma expectativa do que vai aparecer

Quando eu juntar os cacos.

Mas uma expectativa que não é minha, nem corresponde a algo que eu desejei

Eu só queria a imagem verdadeira, mesmo com defeitos.

A imagem sem dores, sem medos, sem toda esta tristeza.

A imagem que eu esqueci, perdida.

Hoje eu só queria ser cuidada num tempo que não passasse, de um jeito sem pressa, de um jeito presente, sem expectativas sobre mim, com um amor que não se explica,e que me fosse contado ao pé do ouvido , como um sussurro, estórias sobre quem eu era antes do estilhaçamento, que secasse todas minhas lagrimas e que falasse baixinho que ia ficar bem, e assim eu adormeceria, com a paz e o sorriso que também já esqueci.

Venha contador(a) de estórias me faça adormecer com seus belos contos…

 

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