O tempo sem tempo

Há um ano mais ou menos resolvi fazer um curso de pintura em madeira. Passeando pelas ruas próximas a casa onde morei em Buenos Aires, me deparei com uma pequena loja, com objetos tão simpáticos a venda, acabei por comprar um pequeno fogão de madeira para Sophia. Foi então que vi um cartaz anunciando um curso de pintura. Pertinho de casa, uma tarde na semana.

Eu já estava sem fazer nada há algum tempo e me pareceu uma ótima maneira de dar vazão ao meu lado criativo.Mal sabia eu que, uma loja tão pequenina podia encerrar em si tantas maravilhas, que me renderia momentos que se cristalizariam  como belissimas recordações.Eu queria apenas aprender pintura em madeira. Então, numa quinta a tarde cheguei, sem saber direito o que iria fazer.

Estavam lá Naty e Ana (as professoras ), uma senhora de uns 65 anos e mais uma mulher de uns 30 anos. Naty, espanhola  nascida em Barcelona,gostwava de cinema e andar de patins, professora de artes plasticas e especializada em restauração de obras de arte, com histórias engraçadíssimas da Espanha, de seus ex namorados, de sua mãe, tipica mãe catalã, das comidas de lá, da época em que viveu na França, me ensinava umas palavras em catalão,. Ana, professora de artes plásticas, gostava de ensinar receitas veganas e ler tarot , mas acreditava que não podia cobrar a leitura, que a visão era um dom, uma mulher com a sabedoria de todas as coisas, falava de filosofia, medicina holistica, de suas tardes de domingo onde ia dançar tango com as amigas, das filhas, dos cachorros que havia resgatado nas ruas. A outra senhora, Haydee gostava de conversar com pessoas no onibus e ouvir suas histórias de amor, gostava de  contar sobre sua netinha, de sua infância na Patagonia, da época que morou na Alemanha, dos livros, sempre ótimas indicações para leitura; a outra moça,  contava sobre quando morou na Espanha,mas se apaixonou por um argentino e montou  negócio em Bariloche, se separou , arranjou um nanmorado que dançava milongas como ninguém e vendeu tudo , foi  morar em Buenos Aires, mas tinha acabado de brigar com o novo amor.

Eram tardes imersas nesta agua pulsante e feminina, um mundo trasbordando a perfume, a receitas, poesia, arte, livros, cores, dividiamos nossas histórias de alegrias, de amores  inesquecíveis, de desencontros e reencontros. O tempo parava durante aquelas duas horas. Minhas tardes almodovarianas. Ríamos, nos emocionávamos, tomávamos chá, trocávamos conselhos sobre o tudo e o nada e pintávamos. Coloriamos e criavamos nossas peças com retalhos de hitórias de mulheres, nossas histórias.

Toda quinta. Um grupo de mulheres reunidas. Mulher este ser encantado, mutante, camaleoas que deixa um rastro de estrelas por onde passa. A pequena lojinha ainda existe, passei por ela há dois meses, mas não entrei. Vi Naty sentada pintando, outras mulheres rindo, convernsando.Eu um dia estive ali, naquela pintura. Preferi guardar o momento assim. Se um dia alguém passar por lá digam que eu mando um beijo enorme. A lojinha chama-se Bendita Tienda .

“A las mujeres hay que tenerlas en cuenta. Hablar con ellas, tener un detalle, de vez en cuando. Acariciarlas de pronto. Recordar que existen, que están vivas y que nos importan. Esa es la única terapia.” (Hable con ella)

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