E se fez o perfume

Aquela semana havia sido particularmente difícil. Mais uma mudança, ela gostava das mudanças mas desta vez foi uma mudança indesejável, foi um parto antes do tempo. Lá ela tinha arvores, parques, saia caminhando com o vento gelado em seu rosto, tirava fotos, ia a museus, respirava arte e poesia. A vida lá também tinha suas mazelas, mas ah…a poesia, como enchia sua alma e mesmo que provisoriamente a fazia esquecer da rotina massacrante.

Estava desfazendo as caixas, arrumando, separando o que era pra doar, pra guardar, pra limpar, pra lavar. Não andava mais pelas ruas, ali as ruas gritavam e hostilizavam os caminhantes, os sonhadores, as pessoas esbarravam-se como cegos em fúria, andavam com pressa, com o olhar vazio, o céu ainda era belo, azul brigadeiro, nuvens macias, mas a tristeza era uma fuligem pesada e aspera quase palpável ao respirar. Separa roupa pra lavar, as meias da filha vieram de novo muito encardidas da escola, lava na mão pra depois colocar na maquina, a maquina de lavar quebrou. Abre mais caixas, não encontrou umas fotos que havia comprado e queria colocar nas paredes, trazer para perto de si um pouquinho da poesia perdida. As costas doíam demais, a cabeça doía, e agora havia cortado o dedo e ele ardia toda vez que coloca sal na comida. Fazer almoço, não podiam comer fora tantas vezes , o dinheiro estava curto. Levar roupa na lavanderia, buscar os lençóis. Buscar a filha na escola. Fez geleia de morango, canela e morando dançavam pela cozinha.

Noites sem dormir pensando no que tinha que fazer no dia seguinte. Para onde tinha ido sua vida?

Abrir mais caixas, precisava fazer uma lista pra se organizar melhor, não tinha tempo e depois ficava ali olhando as listas com coisas pra fazer. Precisava passar roupa, hoje não ia dar, a filha queria que lesse um livro, leram dois. Depois foram brincar de teatro, precisava fazer o jantar. Guardou o edredon, achou os livros de frances. Nunca havia terminado o curso, faltou tempo, dinheiro, não tinha como se dedicar , teve que melhorar o espanhol, fez aulas de espanhol sonhando com as de frances. Precisava terminar as caixas do escritório. foi brincar de teatro, depois de bloquinho. Colocou uma musica no celular, se lembrou do tempo que passava a noite quando era sozinha ouvindo musica.

Abriu uma das caixas e encontrou muito artigos científicos, xerox de livros, do tempo que dava aulas na faculdade, achou papéis de congresso que havia ido. Parecia outra vida, outra pessoa. Nunca ganhou muito dinheiro nesta outra vida, dava aula por gosto, por amor, era homenageada todos os anos mas nunca aumentaram o salário. Muitas das pesquisa havia feito com recursos próprios, por amor a ciência. Mas agora tinha uma filha, não podia se dar ao luxo de um emprego que a tirasse de casa , da filha, pra não ganhar nada, quem ia cuidar da pequena?

Empilhou todos aqueles papéis do lado direito da poltrona, eram para o lixo reciclável. Aqueles artigos além de velhos, não seria mais lidos mesmo. Achou algumas poesias no meio de cadernos, as leu rapidamente. Não tinha mais aquele tempo de ler poesia com contemplação, sorver cada palavra, até que se diluíssem no seu sangue, olhar a janela e sonhar. As poesias também foram para a pilha de papel para reciclar. Com uma ponta de frustração e derrota jogou todo aquele material no lixo verde. Volta para o escritório, continua a organizar papéis, a pequena quer colo, aqueles bracinhos macios em volta do pescoço eram tão bons.

Talvez se organizasse melhor o tempo não se afogasse em meio a tantas tarefas do dia-a-dia, mas não sabia fazer isto, sabia de encantamentos e magias, plantar flores, mas não da vida pratica. A verdade é que para este mundo ela era um objeto partido, incompreensível, indesejavelmente mutante. Talvez fosse amaldiçoada, seu sangue meio humano meio elfo, sempre entre os dois mundos, sempre em nenhum lugar.

Para onde havia fugido sua vida? Aquela mulher atarefada sem tempo para escrever poesia, pintar, ouvir musica sem nada pensar não era ela, não podia ser. Então, quando todos dormiam e só se escutava os estalido do piscar das estrelas, ela pegou no fundo do armário  uma caixa. A caixa continha pequenos saquinhos de encantamentos. Usou apenas um. Se transformou no perfume de dama da noite que ecoa pelo ar nas noites de verão.

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