Eu me vejo em minhas criações

Eu sempre quis saber quem eu realmente era, penso ser uma das grandes perguntas da vida: quem somos? Uma busca quase sempre infrutífera pois sempre eu vejo parte , fragmentos, como imagens refletidas em um pedaço de espelho. Embora conheça partes em mim , outras partes são como um mar escuro, eu sinto suas marés, seu cheiro, nado nele, mas não o vejo. Demorei a perceber que só me vejo naquilo que crio, minhas criações são partes deste quebra-cabeça mutante. Quando não estou  criando com a palavra, estou criando  com textura e aromas, contruindo com eles os castelos de minhas memórias.

A comida me remete a infância na casa de minha avó, é para lá que eu gostaria de levar todos os que amo e amei, naquela cozinha mágica, no quintal com um pessegueiro de flores perfumadas, os pessegos que secavam ao sol para depois ir para o arroz, no balanço que ficava no abacateiro,  o abacate  amassado no garfo e por cima colocava-se o limao e açucar, no jardim com alfazema e hortelã, a hortelã que ia para o suco e para a carne, mexer na farinha que fazia o nhoque, amassar as batatas para fazer o pure, colher alecrim e depois ficar cheirando a palma da mão, fazer bonequinhos com legumes e palitos. Cozinhar é tranformar em arte as mais belas memórias. Quando eu volto para aquela cozinha mágica eu me vejo, não mais em partes, mas inteira.

Eu não tenho nenhuma foto da casa onde minha avó vivia, quando eu tinha quatro anos ela deixou esta casa e foi morar conosco. Mas me lembro que ela era azul e a sua volta era cheio de hortensias  azuis e roxas. Hortensias sempre me lembram minha avó Flora. Talvez esta imagem tenha feito do azul minha cor predileta.

Toda vez que ganho uma receita, eu a testo fielmente e depois a transformo, as vezes nem é mais a receita que foi passada, a receita apenas inspirou uma nova criação. Ela renasce, uma mescla de mim, de minhas memórias. Foi assim que criei minha versão de chutney. O chutney é originário da India, pode ser feito com uma série de ingredientes e mesmo na Índia são encontradas varias versões dele, normalmente são feitos com yougurte, especiarias, gengibre, e uma série de outros produtos que variam. Todavia com a entrada dos ingleses a receita foi alterada, foram incluidas frutas e a proporção de vinagre também mudou. Hoje em dia voce encontra variações de chutney tanto para o doce quanto para o salgado.

Eu tive uma paciente indiana , ela fazia congelados para  expatriados indianos que viviam no Brasil. Um dia pergutei se ela poderia me ensinar algumas receitas, eu amo comida indiana. Ela me convidou para passar uma tarde com ela e como tinha muitas encomendas, foi me ensinando enquanto trabalhava. Ela tinha um milhão de especiarias, a casa inteira cheirava , era como estar no meio de uma feira exótica, e aquelas mulheres com sáris lindos falando ora em portugues , ora em indiano, a música indiana tocando,  todas me ensinando a cozinhar as receitas de suas familias, das mães, das avós. Foi um momento tão especial, eu o guardo na caixinha magica das lembranças. De tempos em tempos abro esta caixa , tiro uma das estórias e a conto, depois cuidadosamente volta a guarda-la. São muito preciosas para mim

Nos próximos posts compartilharei minhas versões de chutney. A versão do meu eu, das minhas lembranças daquela tarde.

 

hortensia

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