La Nuit Des Masques

Existem textos que me tocam de uma maneira que não saberia explicar, como um idioma desconhecido, bonito de escutar mas que eu não entendo. São como sussurros em minha mente, e ficam lá rondando, vindo de mansinho como as espumas das ondas que fazem cócegas nos pés. E um dia, sem nenhuma aviso estes textos e poesias se fazem entender. Um deles é o Louco de Gibran Khalil, o texto conta a história de uma homem que teve suas máscaras roubadas.

Qual é a máscara que voce mais usa? Qual é máscara que voce tem como mais preciosa? Por que precisa dela(s)? Conseguiria viver sem? Durante muito tempo eu confeccionei máscaras para me esconder por detrás delas. Creio que desde a infância as contruo. Minhas máscaras são meu escudo, elas sempre me protegeram do mundo lá fora, são minha concha. Não tenho uma exata lembrança de minha primeira máscara, mas tenho a impressão que ela data da primeira ferida, um golpe desferido pelos meus próprios pais. E pra cada ferida durante a vida fiz uma máscara, de modo que depois de um tempo, alguma máscara antiga servia para alguma ferida nova. Eu tinha um armário rico em máscaras e já não via quem eu era no espelho.

Seria eu : a melhor  aluna da escola, ou a pessoa calma, a pessoa compreensiva, a culta que sabia tudo de cinema, a melhor aluna da faculdade, a pessoa que não conseguia manter nenhum relacionamento duradouro, a pessoa que tinha fobia de relacionamentos, a pessoa que tinha medo de ficar sozinha?  E eram tantas e para tantas ocasiões e pessoas diferentes. Embora durante muito tempo eu acreditei necessitar destas máscaras, embora eu me sentisse mais confortável com elas, a verdade é que eu não percebia que cada máscara encerra em si, uma face cheia de espinhos. E cada vez que eu vestia uma delas eu me feria.

Chega um tempo em que as máscaras que usamos começam a nos  machucar  mais que nos proteger, chega um dia que precisamos tirar o amontoado de máscaras que cobre nossa criança já tão ferida e deixar que o sol, que o ar ajudem a secar tais feridas, senão corremos o risco destas feridas nos causarem mais danos, uma infecção que espalharia por tudo e nos mataria lentamente. Chega um tempo em que devemos nos apresentar de novo a nós mesmos, aprender a amar o que vemos, com as feridas, as imperfeições e a infinita capacidade de vir a ser o que pudermos sonhar. É um longo e nada fácil caminho de volta para o nosso verdadeiro Eu. Um caminho onde perderemos máscaras, convicções, certezas, os objetivos que tinhamos como verdadeiros , sonhos que tinhamos como nossos,  amigos e até amores. Este caminho não garante a felicidade, mas sim a liberdade.

“Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido. (…) ” (Gibran Khalil)

delirium

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