contos

Farewell my dear Dionysus

Acordou com um estranho sentimento de peito aberto, onde o ar não precisa forçar para entrar. Daqueles dias onde se abrem janelas e armarios da casa para tirar o cheiro velho. Caminhou até a praia descalça, ainda sentia o frio da manhã que acabara de nascer. Areias umidas do orvalho  deixavam o caminho macio para os pés ainda sonolentos. Pisar na areia sempre foi um ritual de sentir, relembrar, organizar os pensamentos.

Olhou o mar, aquele azul levemente mais escuro que o azul Chagall. Aquele peito tão cheio de ar e tão leve . Ontem o peito pesava como um cofre, sangrava também. Era um amor de uma agudeza tão profunda, era tão grande. Ele foi vivido até o escuro mais fundo, até o último grão que havia na panela. E, talvez, porque ontem este amor se derramou em musica , poesia e toda flor e formosura para o vazio, ele se consumiu todinho . Não sobrou mais nada dele. Estranho falar dele agora, até mesmo as memórias pareciam borradas como um foto antiga, amarelada, quase apagada.

Agora existia este ar tão imenso e fresco a entrar pelos pulmões. E havia o mar infindo. E isto lhe bastava ao mesmo tempo que lhe trazia de volta a risada larga de uma criança. Afinal, ela era o Bem do mar, ser terrena lhe fazia mal a saúde. Naquela manhã ela voltou para o mar. Daquele amor restou apenas um papel com uns versos copiados de um livro :

“É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora” (Hilda Hilst)

sereia

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