contos

No alarms and no surprises

Uma série de rascunhos de sumários incabados, era isto sua vida. Não conhecia nada profundamente, nem possuia talentos especiais, apenas acumulava saberes que não lhe serviam muito na vida prática. Gostava de imaginar um outro mundo , uma outra vida,  não a dele. Lá, na outra realidade, era um marinheiro.

Nunca saíra da cidade onde nasceu, via o mundo atráves da tela do computador, de histórias de amigos. Não é que não gostasse de viajar, mas ficou muito tempo esperando uma oportunidade perfeita aparecer, mas o tempo passou e ele não viu a correnteza levar o cardume rápido e escorregadio que são as possibilidades. Vivia uma vida pacata dentro da rotina viscosa que lhe cabia.

Aquela manã veio para desafiar seu ritual diário de monótonas repetições. Ao chegar na cozinha para fazer o café, olhou pela janela, o coração lhe saltou a boca. A trepadeira do vizinho que insistia em se derramar por sobre o muro e a qual ele cortava sistematicamente  a cada invasão, não só havia se esparramado preguiçosa por sobre o muro, mas estava repleta de flores escandalosas, libidinosas que abriam suas pétalas petulantes bem em frente a janela da cozinha. Fechou a janela.Decidiu tomar café na rua.

Foi ao café próximo ao trabalho, onde já conhecia o menu, pediu o que sempre pedia nos sabados pela manhã (o dia de tomar café fora de casa). Enquanto esperava o café, um senhor de terno de gola puída, se apresentou como neto do Czar, um mebro nobre da família Romanov. O senhor parecia indiferente ao desespero do nosso personagem que só desejava sua rotina uqe fora roubada. O neto do czar começa então a declamar em russo poemas de Aleksandr Pushkin ,  e depois os traduzia para o portugues.

“É hora, meu amigo, é hora!
A paz é cobiçada pelos corações …
Os dias fluem após dias – cada hora parte
Um pouco de vida – e ambos, você e eu,
Planejamos uma vida longa, mas podemos morrer abruptamente”

Em poucos minutos, todos do café olhavam para mesa daqueles dois singelos personagens  Alegando um compromisso urgente, conseguiu escapar do penoso destino de ser notado, o ar lhe faltava, deixou o café que havia pedido para o neto do Czar e se foi pela rua.

Irritado porém aliviado, sabendo que mais três quadras chegaria ao seu trabalho imutável com as mesmas tarefas, sentiu quase que uma leveza e uma  proteção  aquática e uterina, o dia voltaria ao normal. Sairia no mesmo horário, caminharia pelo mesmo trajeto de todo dia e chegaria a sua casa e cortaria aquela trepadeira luxuriosa. Sua vida bege, sua vida meticulosamente previsível parecia estar salva.

Faltando uma quadra para chegar no escritório, o farol abre para os carros. Ele espera calmamente, a certeza  de que em poucos minutos a rotina pacífica voltará e será intocável. Suspira logamente quase feliz, mas não tão feliz a ponto de perder o controle. Eis que sente alguém puxando sua mão, uma mulher a segura forte, seus dedos percorrem a palma da mão de nosso personagem. Ela olha bem nos olhos deles, imaginem que nos dias de hoje olhar nos olhos de alguém!! Ela lhe diz: sua vida termina hoje, veja aqui e aponta com o dedo de unha pintado de vermelho ja descascando na ponta. Aqui, hoje acaba tudo.

Sentiu um bolo no estomago, queria vomitar, mas ali na rua, na frente de todo mundo…impossível, o que iriam pensar dele? O último dia de sua vida, assim sem planejamento, sem aviso, inaceitável este destino imprevisível. Andou sem rumo por algumas quadras. Rasgou a camisa. Gritou na rua, correu. Alguns o viram na estação rodoviária do Tiête, dizem que entrou num onibus com destino ao Uruguai. Parafraseando Maiakovsky, “dizem que em algum lugar, parece que no Uruguai, existe um homem feliz.”

A vida, aquela vida conhecida dele, acabou naquele dia.

daniel
Daniel Barbeito (pintor uruguaio)

 

 

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