sobre a vida

Pensamentos soltos no vento

São quase 3 da manhã. A previsão era de uma grande tempestade entre quinta e sexta-feira. Choveu, mas nem de longe a tempestade esperada. Coloquei minha filha para dormir, dormi junto. Acordei as 1 da manhã, talvez por ter dormido tão cedo. E por mais que o sono estivesse aqui dentro, o vento canta feroz, levou a tempestade embora e removeu o véu de nuvem, e dona Lua apareceu bailarina de tango lá no salão azul marinho.

Como dormir com esta lua e este vento me chamando? Sou noturna, maritma. Tento dormir, nada. Leio no celular uma carta linda, linda, com cheiro de mar de Caymmy para Jorge Amado, onde ele contava sobre uma nova canção que havia escrito sobre Iemanjá. Acabo levantando, abro a janela, o cheiro do mar no vento.

Iemanjá, minha mãe. Nasci em Porto Alegre, cidade de Iemanjá, assim como tantas outras cidades que são de Mãe Janaína no Brasil. Sempre fui dela, soube disso a primeira vez que vi o mar. Eu, menina de poucas palavras, fiquei horas conversando silenciosamente com o mar. Eu recordo vividamente este dia, do cheiro, do toque das ondas. Aqui não tem centro de Umbanda, com os atabaques que tocam , com o altar pra rainha do mar cheio de rosas brancas, tampouco festejam o dia dela. A primeira vez que eu entrei num centro de Umbanda, uma mulher me segurou e disse: voce é filha de Janaina, nunca entre no mar sem saudá-la. E não há uma unica vez que, quando eu pise na areia, na beira do mar, em silencio eu diga: Saravá Iemanjá, to aqui minha mãe pedindo permissão para entrar em tua casa, voltei para teu colo, voltei para ser ninada no barulho de tuas ondas.

O vento daqui tem sempre cheiro de mar. Eu queria escrever sobre outras coisas, mas só consigo sentir o cheiro do mar, pensar que queria fazer um altar para Iemanjá em meu jardim e que queria sentir a agua do mar banhando meus pés, depois encostar minha cabeça na areia, e ouvir lá ao longe, trazida pelo vento lá da Bahia viria, a voz demorada e calma de Caymmy. Suite dos Pescadores sussurrando com o vento nas ondas.

 

Travessia

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1 thought on “Pensamentos soltos no vento”

  1. Orishas, Oceans, Sirens, Gorgons, Nymphs, Naiades, as well as Demetra, Persephone & others ancient or today’s deities, who knows how many, all a consolation for our ephemeral life….. the only reality is the sea & the wind the wind that “caresses” us or “strikes” our face……….

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