sobre a vida

Heartbreak House

A maioria de nós cresceu vendo as mães sufocarem suas dores físicas e ou emocionais, sua vida era pautada em  fazer a casa funcionar e isto podia incluir calar as dores dos filhos se necessário, para não incomodar o pai. Então, chorar, gritar, reclamar ou qualquer outra reação num momento de dor era vista como indesejável, desagrável, que incomodava, era algo que com certeza geraria algum tipo de repreensão, cara feia da mãe, e na cabeça de muita criança o “não-amor da mãe”. Toda criança busca reconhecimento, amor, e pra ser amado muitos de nós aprendemos que tinhamos que ser “fortes”, engolir o choro, etc. Quando sufocaram o seu primeiro choro?

Acrescente a isto uma cultura judaico-cristã que sacraliza o sofrimento, desde que ele venha seguido seguido do perdão ao algozes, que tem na sua máxima expressão um messias que foi crucificado e  perdoou tudo. E, para cereja do bolo, temos uma sociedade atual onde voce só pode ser feliz e produtivo o tempo todo, selfies ostensivas de sua felicidade em mídias sociais são obrigatórias . Não se contempla mais nada para fora do Eu, além do Eu, um universo de narcisos. A soma destes fatores nefastos não tem como abraçar pessoas com dor, que sofrem, que ficam doentes, que se sentem tristes, afinal elas são tudo o que mais se despreza neste contexto que criou-se.

Não é a toa que eu em 20 anos de clínica contava nos dedos os profissionais com empatia para acolher pacientes que sofriam de dores cronicas. E mesmo na vida pessoal foram incontáveis as vezes que me vi completamente só, quando adoeci, via de regra para mim doença é solidão na certa, as pessoas somem.  Não fomos adestrados para lidar com gente doente, triste. Nos afastamos automaticamente , as vezes sentimos raiva até, não aceitamos a pessoa que “nao sabe ser forte e para de levar sua vida normalmente”, a despeito de doença ou qualquer outro fator limitante.

Entender o motivo de nossa incapacidade de empatia , muitas vezes requer mexermos nas feridas da infancia, e mesmo anos de terapia não sao suficiente para chegar perto delas. Se analisarmos bem a maioria de nós vivenciou formas variadas de violencia, as vezes fisica, as vezes verbal , as vezes na forma silenciosa da indiferença. Nossos pais reproduziram o que aprenderam e nossa sociedade via de regra é violenta, “só os  fortes sobrevivem”. E isto em tempos antigos podia fazer algum sentido, mas hoje não faz. Mexer nestas feridas dói, então assuminos discursos que “foi ruim, mas me fez ser quem eu sou (no sentido de ser alguem forte)” ou jogamos pra baixo do tapete, fingindo que não aconteceu. Ver alguem chorar, reclamar de dor, de tristeza é algo que fala diretamente a nossa criança que foi oprimida, reprimida. O que aprendemos a fazer com ela? oras, é feio chorar, é feio reclamar, se a pessoa não “melhora” o comportamento ficamos longe dela, retiramos aquele individuo do nosso “circulo bolha feliz e para fortes”. Obviamente não podemos lidar com a dor de todos no mundo, mas usando este argumento não estamos sequer acolhendo a dor dos mais próximos, filhos, esposa, marido, amigos próximos.

Imagino que se cultivassemos em nós a capacidade da empatia, poderiamos amar verdadeiramente,  para além disso é um terreno confuso onde muitas coisas podem ser chamada de amor, mas não são. Então, minha mente vagueia até um filme que assisti há muitos anos atrás de Sokurov. O filme, Mournful Unconcern  baseou-se na peça para teatro de Bernad Shaw, chamada Heartbreak House: A Fantasia in the Russian Manner on English Themes. Tanto na peça quanto no filme os personagens estão completamente desconectados com a relidade e entre eles. Durante todo filme se escutam barulhos de tiros e bombas da 1° e 2° guerra, alienados à tudo isto os personagens seguem suas histórias, eventualmente fechando as janelas/portas quando o ruído fica muito alto. O ápice do filme é, quando alguns dos personagens, fazem uma aula de Yoga na sala, nas janelas passam como num filme cenas da 1° e 2° guerra mundial, pessoas sendo mortas, tiros, bombas. Um deles fecha as janelas indiferente a tudo que se passa lá fora, o professor de Yoga pede para que eles respirem e concentrem-se em seus umbigos, ao que um personagem responde: “Mas não é o que temos feito até agora?”

Nós não acolhemos o outro pois nunca fomos acolhidos, nunca nos foi ensinado acolher, aliás foi nos ensinado algo que vai no sentido oposto, acolher alguém o torna fraco. E seguimos feridos e ferindo. Sair deste vórtice requer uma grande honestidade e coragem consigo mesmo para olhar o passado e resgatar o que se perdeu quando nosso primeiro choro foi calado.

soko
Mournful Unconcern Sokurov

 

uma pequena cena do filme, infelizmente não encontrei nenhuma com subtitulo.

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