Musica

Di Melo, o soul brasileiro

E ai, que remexendo em lsitas antigas, encontrei esta mágica pérola. Quanta coisa boa neste album épico de Di Melo.

” Kilário!Raiou o dia, eu vi chover em minha horta…”

“Entrou em choque publicitário
Foi forte a queda do seu império
É golpe duro pra milionário
Com honorários tornar-se servo…”

“A cidade acorda e sai pra trabalhar
Na mesma rotina, no mesmo lugar
Ela então concorda que tem que parar
Ela não discorda que tem que mudar
Mas ela recorda que tem que lutar”

 

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contos

No alarms and no surprises

Uma série de rascunhos de sumários incabados, era isto sua vida. Não conhecia nada profundamente, nem possuia talentos especiais, apenas acumulava saberes que não lhe serviam muito na vida prática. Gostava de imaginar um outro mundo , uma outra vida,  não a dele. Lá, na outra realidade, era um marinheiro.

Nunca saíra da cidade onde nasceu, via o mundo atráves da tela do computador, de histórias de amigos. Não é que não gostasse de viajar, mas ficou muito tempo esperando uma oportunidade perfeita aparecer, mas o tempo passou e ele não viu a correnteza levar o cardume rápido e escorregadio que são as possibilidades. Vivia uma vida pacata dentro da rotina viscosa que lhe cabia.

Aquela manã veio para desafiar seu ritual diário de monótonas repetições. Ao chegar na cozinha para fazer o café, olhou pela janela, o coração lhe saltou a boca. A trepadeira do vizinho que insistia em se derramar por sobre o muro e a qual ele cortava sistematicamente  a cada invasão, não só havia se esparramado preguiçosa por sobre o muro, mas estava repleta de flores escandalosas, libidinosas que abriam suas pétalas petulantes bem em frente a janela da cozinha. Fechou a janela.Decidiu tomar café na rua.

Foi ao café próximo ao trabalho, onde já conhecia o menu, pediu o que sempre pedia nos sabados pela manhã (o dia de tomar café fora de casa). Enquanto esperava o café, um senhor de terno de gola puída, se apresentou como neto do Czar, um mebro nobre da família Romanov. O senhor parecia indiferente ao desespero do nosso personagem que só desejava sua rotina uqe fora roubada. O neto do czar começa então a declamar em russo poemas de Aleksandr Pushkin ,  e depois os traduzia para o portugues.

“É hora, meu amigo, é hora!
A paz é cobiçada pelos corações …
Os dias fluem após dias – cada hora parte
Um pouco de vida – e ambos, você e eu,
Planejamos uma vida longa, mas podemos morrer abruptamente”

Em poucos minutos, todos do café olhavam para mesa daqueles dois singelos personagens  Alegando um compromisso urgente, conseguiu escapar do penoso destino de ser notado, o ar lhe faltava, deixou o café que havia pedido para o neto do Czar e se foi pela rua.

Irritado porém aliviado, sabendo que mais três quadras chegaria ao seu trabalho imutável com as mesmas tarefas, sentiu quase que uma leveza e uma  proteção  aquática e uterina, o dia voltaria ao normal. Sairia no mesmo horário, caminharia pelo mesmo trajeto de todo dia e chegaria a sua casa e cortaria aquela trepadeira luxuriosa. Sua vida bege, sua vida meticulosamente previsível parecia estar salva.

Faltando uma quadra para chegar no escritório, o farol abre para os carros. Ele espera calmamente, a certeza  de que em poucos minutos a rotina pacífica voltará e será intocável. Suspira logamente quase feliz, mas não tão feliz a ponto de perder o controle. Eis que sente alguém puxando sua mão, uma mulher a segura forte, seus dedos percorrem a palma da mão de nosso personagem. Ela olha bem nos olhos deles, imaginem que nos dias de hoje olhar nos olhos de alguém!! Ela lhe diz: sua vida termina hoje, veja aqui e aponta com o dedo de unha pintado de vermelho ja descascando na ponta. Aqui, hoje acaba tudo.

Sentiu um bolo no estomago, queria vomitar, mas ali na rua, na frente de todo mundo…impossível, o que iriam pensar dele? O último dia de sua vida, assim sem planejamento, sem aviso, inaceitável este destino imprevisível. Andou sem rumo por algumas quadras. Rasgou a camisa. Gritou na rua, correu. Alguns o viram na estação rodoviária do Tiête, dizem que entrou num onibus com destino ao Uruguai. Parafraseando Maiakovsky, “dizem que em algum lugar, parece que no Uruguai, existe um homem feliz.”

A vida, aquela vida conhecida dele, acabou naquele dia.

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Daniel Barbeito (pintor uruguaio)

 

 

sobre a vida

Minha nada pequena caixa de lágrimas

Meu tio morreu com 43 anos , foi a primeira pessoa próxima que eu perdi. Dele guardo uma parte muito terna de minha infancia. Ele mentia, inventava histórias absurdas e acreditava nelas, e eu ria muito. Ele se mantia sério para sustentar a história por dias, semanas. Me lembro dos almoços de família, quando os adultos resolviam deixar o ar chato e pesado, ele no sofá encostava a cabeça e dormia, dormia mesmo, as vezes não acordava nem para se despedir. Um dia meu pai voltou para casa e disse que meu tio estava no hospital, ninguém sabia o que era. Eu tinha, 12 anos, morávamos na mesma rua, eu passava todo dia na casa dele pra ele me contar as histórias mentirosas e malucas, naquele dia não houve história. Nunca mais houve nenhuma delas. Em poucos meses ele se foi, primeiro foi o rim a parar depois os outros orgãos. Não me deixavam ir no hospital por meses, mas no final deixaram. Ele me pareceu tão cansado, como se o obrigassem a ficar acordado no meio daquelas discussões familiares que ele sempre dormia. Ele queria dormir, ir embora, mas não o deixavam partir.

Me sentei ao lado dele em silencio, segurei na mão e perguntei sobre a última história que ele havia me contado meses atrás, eu disse: é mentira né tio? Ele riu e disse: eu nunca enganei voce ne? de todas as crianças voce era a única que sabia que era mentira. Nós rimos. Ele me contou que no pé da cama estava meu avô e o cachorro que ele tinha (ambos já tinham morrido), e que ele queria ir junto. Desta vez eu sabia que era verdade. Eu o beijei e disse meu adeus. Chorei quando sai do quarto no hospital. Mas seria indelicado desejar que alguém que quer partir, ficasse. Talvez porque desde pequena eu tenha sido separada de coisas e pessoas caras para mim, eu tenha aprendido a tratar com extrema delicadeza e ternura o momento da partida. É um momento solene, único.

Naquela noite minha mãe veio falar comigo, eu não era de chorar, então ela estranhou. É que eu não choro lágrimas que se podem enxergar. É dentro de mim que chovem tempestades e só as vezes elas transbordam pelos olhos. Meu tio morreu de uma doença auto-imune rara, a médica disse que haviam poucos casos na literatura, mas que qualquer um da família podia ter, se passássemos dos 50 anos não tinha mais risco, a doença não tem cura e ninguém que a desenvolve vive mais que 47 anos, mas por algum motivo depois dos 50 anos nunca houve um registro desta doença.

Depois disso eu vi muitas pessoas morrerem, pessoas próximas, meus cães que morreram no meu colo, pacientes em hospital. Nunca pensei se há algo depois, apenas que na hora da partida meu silencio viesse carregado de ternura e paz. De alguma maneira aqueles que se foram falaram comigo sobre seu desejo de partida, alguns arrastam meses para poder ir embora e não magoar aqueles que amam. A hora da partida é quando  derramamos o sumo do puro amor, que é deixar partir com ternura, é se despir de qualuqer sentimento egoísta e compreender que a hora do adeus é um momento único e especial.

Passei o dia pensando no meu tio. O motivo, há alguns dias meus rins estão apresentando problemas, parece ser uma infecção, bem dolorosa por sinal. Há alguns meses meus exames de sangue tiveram alterações nada sérias, mas atípicas para mim até então. Não acho que seja a mesma doença, os testes de sangue nao mostraram nada mais alarmante. Mas sim, passou pela minha cabeça. Eu sempre me interessei cientificamente por terapias alternativas, uma parte delas  realmente não faz sentido, outros seriam mais complementares. Mas há anos venho lendo artigos sobre causas psicossomáticas das doenças. Curiosamente nenhuma doença  vem isolada de um componente psicológico. É bem comum em pacientes com cancer ter um histórico de guardar magoas, amigdalites recorrentes em pessoas que não dizem o que está preso na garganta, rinites alergicas em pessoas que tiveram uma infancia opressora, furunculos em quem está sentindo muita ira/ódio e assim por diante. Nao descarto a causa física da doença: uma bacteria, imunidade baixa, genética, etc, mas é curioso observar que quase sempre o sentimento acompanha a doença física. Não tenho explicação para isto, apenas minha observação  clínica de 20 anos em clínicas multidisciplinares.

Os rins…eles filtram o sangue, retiram o que não serve que vai para a urina e o que serve volta a circular. O que vem do fígado (a raiva), coração (os amores correspondidos ou não) , pulmoes (as magóas, tristezas), tudo precisa passar por lá. Mas quando há muita coisa nossos filtros entopem, sobrecarregam, adoecem. Na Medicina chinesa disturbios nos rins estão ligados a emoções, a água, é chamado doença da agua. Talvez as lagrimas de toda minha vida tenham se acumulado nos rins. Eu nao consigo chorar, meus rins choram por mim. A cólica renal é como um coração pulsando nas suas costas, pulsando cheio de dor. Como se a dor a cada pulsada quisesse abrir caminho sob minha pele para explodir num grito do lado de fora. Se o choro tenta vir para os olhos ele para no coração, este caminho lhe é estranho e há um aperto , o choro volta a descer e bate com força contra minhas costas.

A maioria das pessoas pensa me conhecer, alguns me acham sarcastica, outros engraçada, outros acham que eu reclamo demais, me importo demais com coisas que não deveria, e outros tantos personagens que se inventam de mim por aí. Não sabem tanto da minha história pois estão preocupadas em contar as delas, e baseado nas histórias delas, nas suas opiniões decidem sobre quem sou. Eu rio apenas como meu tio ria de quem acreditava em suas histórias mirabolantes. Nós acreditamos naquilo que queremos acreditar, poucos são os que querem ver realmente atráves do véu. E, cada um tem seu tempo de aprender a escutar, uns nunca aprendem, precisam demais passar a vida contando a versão delas sobre o tudo e o nada.

Eu precisava escrever tudo isso para clarear minha mente. Escrever é minha terapia , já que falando perco mais da metade das minhas palavras pensadas. Preciso aprender a chorar. Baba significa pai no idioma Yoruba.

 

sobre a vida

Minha flor, minha cor, minha cara

Das lindezas que minha filha me ensinou:

“existem gente que traz flores na mão e tem gente que tem flor escondida no coração, estas são as flores mais bonitas”

“passarinhos brincam de pega-pega no céu”

“os cachorros latem pois estão sem as crianças deles, eles estão perguntando se nós vimos as crianças deles.”

“hoje eu assoprei um dente de leão, eu não sabia que voava tudo, pareciam bailarinas girando no vento que eu fiz”

“por que tem gente morando na rua se tem tanta casa vazia?”

“no mundo tem espaços para todos os deuses e deusas, mas eu gosto mais do Shiva, pois da boca dele saem estrelas e todo universo”

Minha flor, minha cor, minha cara, que sonha um dia em ser astronauta e ir lá longe, numa estrela onde está nosso cachorro que morreu e traze-lo de volta, e depois ir até a estrela ao lado, trazer os Beatles para cantar de novo por aqui no nosso planetinha azul.

Como escreveu Fernando Pessoa ” A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar as cousas (..) é a Eterna criança, o deus que faltava. (…) o divino que sorri e que brinca”

Sophia domina a arte do Kintsugi, antiga técnica japonesa para consertar objetos frágeis de cerâmica quebrados, rompidos ou com rachaduras usando a resina da árvore de laca e pó de ouro. E é assim que ela tem me ajudado a colar os pedaços cá dentro.

 

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Receitas, receitas&memories

Pão Caseirinho

De uns tempos para cá dei para tomar gosto por fazer pão. Praticamente um tempo de meditação. Misturar, sovar a massa me acalma. A parte engraçada que venho de uma família de fazedores de pão excepcionais, lembro dos paẽs na casa das minahs avós e os que minha mãe fazia, eram lindos e deliciosos. Eu sempre amei o perfume do pão que estava crescendo no forno. Mas sei lá por quê, eu nunca fiz pão em casa, fiz poucas vezes e como deu errado eu perdi o interesse.

Aqui em Auckland não há tanta variedade de pães, um ou outro lugar até faz alguns pães interessantes. Então, outro dia encontrei uma receita de um curso que fiz com um senhor engraçadissimo, cheio de histórias curiosas. Ele era padeiro desde os 15 anos de idade, pessoa simples e encantadora. A receita do pão caseirinho, muito comum no interior de São Paulo, para voces. Eu faço em geral metade da receita pois rende muito (faço pães pequenos mais ou menos 10 a 15 cm). Este aqui fiz ontem pois uma amiga de minha filha veio dormir em casa, duas menininhas brincando e cantando em casa enquanto eu fazia o pão.

1°parte (esponja):

400 gr de farinha de trigo peinerada

40 gr de fermento biológico seco

300 gr de leite integral (atençao são 300gr e não 300 ml)

10 gr de sal

Modo de preparo:

Misture a farinha e o fermento num bowl com um fuet. Depois lentamente vá acrescentando o leite, por ultimo o sal. Eu usei uma batedeira com que faço pão, mas pode-se fazer com a mão: após misturar a farinha com o fermento,  faça um circulo, coloque o sal na região das bordas e no meio vá colocando o leite aos poucos (coloque um pouco misture com um pouco de farinha), vá trabalhando a massa .A massa deve ficar homogenea. Coloque num bowl e deixe por 40 minutos coberto com um filme plástico.

Eu uso uma “estufa caseira”, num microondas coloco um copo com 200 ml de agua, aqueço por 1 minuto, depois coloco o bowl com a massa dentro do microondas e o copo ao lado  e deixo lá (sem ligar o microondas). Cria um ambiente bom para que a massa cresça.

2° parte:

250 gr de manteiga (derreta no micoondas)

800 gr de farinha de trigo peinerada

200 gr de açucar

200gr de ovos (uns 4 ovos)

Modo de Preparo:

Misture os ingredientes desta etapa a esponja (1°parte) numa superfície limpa. Sove a massa até que fique homogenea e bem lisa.

A seguir dividir a massa e modelar a gosto (eu estico a massa com um rolo e depois enrolo como como uma espécie de rocambole). Passe na farinha (eu não passo, para quem for passar o pao vai ficar com aquela camada de farinha depois de assado, fica bonito mas cai farinha pra toda parte, e eu moro numa casa cheia de carpete).Arranje os pães numa travessa, cubra. Deixe descansar até dobrar de tamanho.

Após o crescimento leve para assar em forno a 180°C até dourar.

pao

Dica : embaixo da forma com os pães coloque uma outra forma com agua, isto cria umidade  e ajuda pois o forno de casa não é igual ao forno da padaria.

Chame uma amiga, passe um café no coador, passe uma manteiga deliciososa neste pão quentinho, comam, conversem , deem risadas. A vida acontece enquanto nos divertimos.

Um musiquita  pra escutar enquanto faz o pão, neste idioma delicioso que é o crioulo cabo-verdiano, este idoma que sabe a colo, cançao de ninar e amor preguiçoso na rede.

 

 

 

Libraries around the world, Livraraias pelo mundo, viagem

Livrarias pelo Mundo

Livrarias e Bibliotecas estão entre meus locais preferidos para diversão. Tenho comigo uma lista das que conheci e que me encantaram e das que ainda quero conhecer. Quando estive em Malaga , Espanha, me deparei com uma destas jóias raras. Numa rua aconchegante e relativamente tranquila, fica um misto de oficina de Leonardo Da Vinci e a caverna de Ali Baba descrita nas Mil e Umas Noites. Ali voce encontrará tesouros de procedencias remotas e incomuns. Uma livraria especializada em mapas, globos terrestres, livros de viagens, histórias sobre viagens, sobre viajantes, poesia e viagens, lugares que voce nem imaginava existir, um mundo inteiro a se descobrir atráves de deliciosos livros em vários idiomas. A viagem começa ali, eu não tenho a menor duvida. O nome do local: Mapas Y Compañya

mapas y

Não tenho idéia se é possível comprar livros online e entregar em algum local fora da Espanha, mas no site há o contato deles e o email, quem sabe com alguma taxa extra seja possível. De lá trouxe algumas lembranças: um mapa onde posso marcar os locais que já conheci e havia uma sessão sobre mulheres aventureiras. Comprei um livro sobre uma viagem feita do Afeganistão até Turquemenistão feita em 1935 por uma mulher. passando por Kabul, Kandahar, Bamyan , o famoso Hindu-Kush até a distante Samarkanda. A escritora nos leva à paisagens e pessoas, fatos e histórias da época, é possível notar um surpreende paralelismo entre a atualidade e a narrativa do livro.

ruta

 

“Veo las palabras en mi corazón” dijo. Otro anciano, de tez marrón como cáscara de avellana y también vestido con las voluminosas vestiduras del pasado, me reprendió com dulzura : “Él es ciego, pero las palabras son las verdaderas”