Alejandro Jodorowsky, arte, cinema

A semente

“Sentir el despegue del pasado,
aterrizar en un cuerpo de adulto,
soportar el peso de dolorosos años,
pero en el corazón,
conservar al niño como una hostia viva,
como un canario blanco,
como un diamante digno,
con una lucidez y muros,
puertas y ventanas abiertas,
por donde atraviesa el viento….
nada más que el viento…”

Alejandro Jodorowsky

 

arte, culinária, mulheres, poesia, sobre a vida

Eu me vejo em minhas criações

Eu sempre quis saber quem eu realmente era, penso ser uma das grandes perguntas da vida: quem somos? Uma busca quase sempre infrutífera pois sempre eu vejo parte , fragmentos, como imagens refletidas em um pedaço de espelho. Embora conheça partes em mim , outras partes são como um mar escuro, eu sinto suas marés, seu cheiro, nado nele, mas não o vejo. Demorei a perceber que só me vejo naquilo que crio, minhas criações são partes deste quebra-cabeça mutante. Quando não estou  criando com a palavra, estou criando  com textura e aromas, contruindo com eles os castelos de minhas memórias.

A comida me remete a infância na casa de minha avó, é para lá que eu gostaria de levar todos os que amo e amei, naquela cozinha mágica, no quintal com um pessegueiro de flores perfumadas, os pessegos que secavam ao sol para depois ir para o arroz, no balanço que ficava no abacateiro,  o abacate  amassado no garfo e por cima colocava-se o limao e açucar, no jardim com alfazema e hortelã, a hortelã que ia para o suco e para a carne, mexer na farinha que fazia o nhoque, amassar as batatas para fazer o pure, colher alecrim e depois ficar cheirando a palma da mão, fazer bonequinhos com legumes e palitos. Cozinhar é tranformar em arte as mais belas memórias. Quando eu volto para aquela cozinha mágica eu me vejo, não mais em partes, mas inteira.

Eu não tenho nenhuma foto da casa onde minha avó vivia, quando eu tinha quatro anos ela deixou esta casa e foi morar conosco. Mas me lembro que ela era azul e a sua volta era cheio de hortensias  azuis e roxas. Hortensias sempre me lembram minha avó Flora. Talvez esta imagem tenha feito do azul minha cor predileta.

Toda vez que ganho uma receita, eu a testo fielmente e depois a transformo, as vezes nem é mais a receita que foi passada, a receita apenas inspirou uma nova criação. Ela renasce, uma mescla de mim, de minhas memórias. Foi assim que criei minha versão de chutney. O chutney é originário da India, pode ser feito com uma série de ingredientes e mesmo na Índia são encontradas varias versões dele, normalmente são feitos com yougurte, especiarias, gengibre, e uma série de outros produtos que variam. Todavia com a entrada dos ingleses a receita foi alterada, foram incluidas frutas e a proporção de vinagre também mudou. Hoje em dia voce encontra variações de chutney tanto para o doce quanto para o salgado.

Eu tive uma paciente indiana , ela fazia congelados para  expatriados indianos que viviam no Brasil. Um dia pergutei se ela poderia me ensinar algumas receitas, eu amo comida indiana. Ela me convidou para passar uma tarde com ela e como tinha muitas encomendas, foi me ensinando enquanto trabalhava. Ela tinha um milhão de especiarias, a casa inteira cheirava , era como estar no meio de uma feira exótica, e aquelas mulheres com sáris lindos falando ora em portugues , ora em indiano, a música indiana tocando,  todas me ensinando a cozinhar as receitas de suas familias, das mães, das avós. Foi um momento tão especial, eu o guardo na caixinha magica das lembranças. De tempos em tempos abro esta caixa , tiro uma das estórias e a conto, depois cuidadosamente volta a guarda-la. São muito preciosas para mim

Nos próximos posts compartilharei minhas versões de chutney. A versão do meu eu, das minhas lembranças daquela tarde.

 

hortensia

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Cangote

Cangote : ninho de perfumes que viciam, local de suavidade pessegueira onde se pousa o nariz antes de adormecer; sítio onde se encaixam dentes e boca , causando arrepio borboletal que  se espalha pelo corpo e jorra pelos olhos. Tua casa.

Há um ano cortei meu longos e negros cabelos, que chegavam quase na cintura. Cortei na altura da nuca. Também troquei a cor, para vermelho. Descobri que esta era minha cor todo o tempo, ao menos para os cabelos. Era uma tarde fria, frio cortante.

Quando sai de dentro do salão senti o frio de uma maneira tão inédita. Que sensação feliz do vento dançando na minha nuca,  senti uma liberdade tão plena, era quase possível voar. Quanta leveza!!! 

Desde então, mantenho as madeixas aparadas e as portas abertas para ventanias e tempestades.

 

cangote

(imagem retirada do Pinterest)

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E se fez o perfume

Aquela semana havia sido particularmente difícil. Mais uma mudança, ela gostava das mudanças mas desta vez foi uma mudança indesejável, foi um parto antes do tempo. Lá ela tinha arvores, parques, saia caminhando com o vento gelado em seu rosto, tirava fotos, ia a museus, respirava arte e poesia. A vida lá também tinha suas mazelas, mas ah…a poesia, como enchia sua alma e mesmo que provisoriamente a fazia esquecer da rotina massacrante.

Estava desfazendo as caixas, arrumando, separando o que era pra doar, pra guardar, pra limpar, pra lavar. Não andava mais pelas ruas, ali as ruas gritavam e hostilizavam os caminhantes, os sonhadores, as pessoas esbarravam-se como cegos em fúria, andavam com pressa, com o olhar vazio, o céu ainda era belo, azul brigadeiro, nuvens macias, mas a tristeza era uma fuligem pesada e aspera quase palpável ao respirar. Separa roupa pra lavar, as meias da filha vieram de novo muito encardidas da escola, lava na mão pra depois colocar na maquina, a maquina de lavar quebrou. Abre mais caixas, não encontrou umas fotos que havia comprado e queria colocar nas paredes, trazer para perto de si um pouquinho da poesia perdida. As costas doíam demais, a cabeça doía, e agora havia cortado o dedo e ele ardia toda vez que coloca sal na comida. Fazer almoço, não podiam comer fora tantas vezes , o dinheiro estava curto. Levar roupa na lavanderia, buscar os lençóis. Buscar a filha na escola. Fez geleia de morango, canela e morando dançavam pela cozinha.

Noites sem dormir pensando no que tinha que fazer no dia seguinte. Para onde tinha ido sua vida?

Abrir mais caixas, precisava fazer uma lista pra se organizar melhor, não tinha tempo e depois ficava ali olhando as listas com coisas pra fazer. Precisava passar roupa, hoje não ia dar, a filha queria que lesse um livro, leram dois. Depois foram brincar de teatro, precisava fazer o jantar. Guardou o edredon, achou os livros de frances. Nunca havia terminado o curso, faltou tempo, dinheiro, não tinha como se dedicar , teve que melhorar o espanhol, fez aulas de espanhol sonhando com as de frances. Precisava terminar as caixas do escritório. foi brincar de teatro, depois de bloquinho. Colocou uma musica no celular, se lembrou do tempo que passava a noite quando era sozinha ouvindo musica.

Abriu uma das caixas e encontrou muito artigos científicos, xerox de livros, do tempo que dava aulas na faculdade, achou papéis de congresso que havia ido. Parecia outra vida, outra pessoa. Nunca ganhou muito dinheiro nesta outra vida, dava aula por gosto, por amor, era homenageada todos os anos mas nunca aumentaram o salário. Muitas das pesquisa havia feito com recursos próprios, por amor a ciência. Mas agora tinha uma filha, não podia se dar ao luxo de um emprego que a tirasse de casa , da filha, pra não ganhar nada, quem ia cuidar da pequena?

Empilhou todos aqueles papéis do lado direito da poltrona, eram para o lixo reciclável. Aqueles artigos além de velhos, não seria mais lidos mesmo. Achou algumas poesias no meio de cadernos, as leu rapidamente. Não tinha mais aquele tempo de ler poesia com contemplação, sorver cada palavra, até que se diluíssem no seu sangue, olhar a janela e sonhar. As poesias também foram para a pilha de papel para reciclar. Com uma ponta de frustração e derrota jogou todo aquele material no lixo verde. Volta para o escritório, continua a organizar papéis, a pequena quer colo, aqueles bracinhos macios em volta do pescoço eram tão bons.

Talvez se organizasse melhor o tempo não se afogasse em meio a tantas tarefas do dia-a-dia, mas não sabia fazer isto, sabia de encantamentos e magias, plantar flores, mas não da vida pratica. A verdade é que para este mundo ela era um objeto partido, incompreensível, indesejavelmente mutante. Talvez fosse amaldiçoada, seu sangue meio humano meio elfo, sempre entre os dois mundos, sempre em nenhum lugar.

Para onde havia fugido sua vida? Aquela mulher atarefada sem tempo para escrever poesia, pintar, ouvir musica sem nada pensar não era ela, não podia ser. Então, quando todos dormiam e só se escutava os estalido do piscar das estrelas, ela pegou no fundo do armário  uma caixa. A caixa continha pequenos saquinhos de encantamentos. Usou apenas um. Se transformou no perfume de dama da noite que ecoa pelo ar nas noites de verão.

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O tempo sem tempo

Há um ano mais ou menos resolvi fazer um curso de pintura em madeira. Passeando pelas ruas próximas a casa onde morei em Buenos Aires, me deparei com uma pequena loja, com objetos tão simpáticos a venda, acabei por comprar um pequeno fogão de madeira para Sophia. Foi então que vi um cartaz anunciando um curso de pintura. Pertinho de casa, uma tarde na semana.

Eu já estava sem fazer nada há algum tempo e me pareceu uma ótima maneira de dar vazão ao meu lado criativo.Mal sabia eu que, uma loja tão pequenina podia encerrar em si tantas maravilhas, que me renderia momentos que se cristalizariam  como belissimas recordações.Eu queria apenas aprender pintura em madeira. Então, numa quinta a tarde cheguei, sem saber direito o que iria fazer.

Estavam lá Naty e Ana (as professoras ), uma senhora de uns 65 anos e mais uma mulher de uns 30 anos. Naty, espanhola  nascida em Barcelona,gostwava de cinema e andar de patins, professora de artes plasticas e especializada em restauração de obras de arte, com histórias engraçadíssimas da Espanha, de seus ex namorados, de sua mãe, tipica mãe catalã, das comidas de lá, da época em que viveu na França, me ensinava umas palavras em catalão,. Ana, professora de artes plásticas, gostava de ensinar receitas veganas e ler tarot , mas acreditava que não podia cobrar a leitura, que a visão era um dom, uma mulher com a sabedoria de todas as coisas, falava de filosofia, medicina holistica, de suas tardes de domingo onde ia dançar tango com as amigas, das filhas, dos cachorros que havia resgatado nas ruas. A outra senhora, Haydee gostava de conversar com pessoas no onibus e ouvir suas histórias de amor, gostava de  contar sobre sua netinha, de sua infância na Patagonia, da época que morou na Alemanha, dos livros, sempre ótimas indicações para leitura; a outra moça,  contava sobre quando morou na Espanha,mas se apaixonou por um argentino e montou  negócio em Bariloche, se separou , arranjou um nanmorado que dançava milongas como ninguém e vendeu tudo , foi  morar em Buenos Aires, mas tinha acabado de brigar com o novo amor.

Eram tardes imersas nesta agua pulsante e feminina, um mundo trasbordando a perfume, a receitas, poesia, arte, livros, cores, dividiamos nossas histórias de alegrias, de amores  inesquecíveis, de desencontros e reencontros. O tempo parava durante aquelas duas horas. Minhas tardes almodovarianas. Ríamos, nos emocionávamos, tomávamos chá, trocávamos conselhos sobre o tudo e o nada e pintávamos. Coloriamos e criavamos nossas peças com retalhos de hitórias de mulheres, nossas histórias.

Toda quinta. Um grupo de mulheres reunidas. Mulher este ser encantado, mutante, camaleoas que deixa um rastro de estrelas por onde passa. A pequena lojinha ainda existe, passei por ela há dois meses, mas não entrei. Vi Naty sentada pintando, outras mulheres rindo, convernsando.Eu um dia estive ali, naquela pintura. Preferi guardar o momento assim. Se um dia alguém passar por lá digam que eu mando um beijo enorme. A lojinha chama-se Bendita Tienda .

“A las mujeres hay que tenerlas en cuenta. Hablar con ellas, tener un detalle, de vez en cuando. Acariciarlas de pronto. Recordar que existen, que están vivas y que nos importan. Esa es la única terapia.” (Hable con ella)