devaneios, sobre a vida

Se me ha perdido

 

“I  lost a heart

If someone has it, please give me back.

I used to have it close to me, but the door of its love was opened.

I need the heart to keep living without your love…”

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estrangeiros vivendo fora do pais, sobre a vida

Exílio

“Substantivo masculino.

O exílio (do latim exilium = banimento, degredo) é o estado de estar longe da própria casa (seja cidade ou nação) e pode ser definido como a expatriação, voluntária ou forçada de um indivíduo. Também pode-se utilizar as palavras, banimento, desterro ou degredo. Alguns autores utilizam o termo exilado no sentido de refugiado .” (wikipedia)

Guardo comigo um trabalho que fiz de artres plasticas que foi premiado na escola, uma colagem com algumas fotos de revistas e ilustrações minhas, o tema: Brasil Ame-o ou Deixe-o. Colei com recortes de revista a frase: o ultimo que sair apague a luz. Eu tinha na epoca 13 anos.

Eu não sai do meu país porque lá era bom demais. Eu sai de lá por que não via mais saida. E hoje eu vejo que os caminhos se fecharam mais ainda. Não faço parte dos que fingem não ver nada, dos que se isolam para não ver nada, dos que dão meia duzia de esmolas e acham que fazem a diferença, mas também sei quando é hora de sair de campo, pois a nem a batalha nem a guerra serão ganhas, como diz a musica: “eles ganharam e o sinal está fechado para nós”. Seria preciso uma revolução ou uma mudança construida por decadas e com muito trabalho para mudar a realidade atual, nenhuma destas opções está a disposição.

Está tudo tão errado e torto que nem valeria a pena enumerar os absurdos; O tanto de sangue derramado diariamente, as prisões arbitrarias, os direitos humanos no lixo. Hoje eu nao tenho um país para voltar. Diferente das pessoas que aqui me contam que vão para seus países visitar a familia, eu não sei o que dizer. Eu ainda tenho familia, amigos no Brasil, mas não sei se ainda tenho o Brasil pra ir. Até o nome do meu país se tornou estranhamente amargo em minha lingua. Eu não sou de lá, nem daqui, eu falo idiomas que não são meus, eu estudo uma História que não é minha.

Eu sempre gostei de viajar, conhecer outros lugares, mas sinto como se, no meio de uma viagem alguém me avisasse que era pra continuar viajando, pois eu não tinha mais lugar pra voltar. Li outro dia uma frase em um livro que ficou ecoando em minha mente:  “I always be de afuera”. Eu sinto saudade, mas de algo que nao existe mais, dificil explicar saudade em outro idioma que não o meu, mais dificil explicar o que é sentir saudade de algo que não existe.

Desde que saimos do Brasil sempre acompanho as noticias, um festival de horror, nao ficamos um dia sem noticias péssimas, fim de varios direitos, abuso de autoridades, violencia, assassinatos, perseguições politicas, censura, mas brasileiro não se cansa de ter esperança, diz o ditado, né? Depois da morte de Marielle eu confesso que cansei, hoje vi um Judiciario que nao se apressa em prender meia duzia de bandidos amigos, mas rapidinho se apressou em usar a lei na tentativa de colocar na prisao, ainda com provas questionaveis, um forte candidato de oposição. Nem é meu candidato, não é uma pessoa que eu acredite que vai salvar alguma coisa, mas enfim… eu queria ter uma democracia para chamar de minha.

Hoje eu joguei a toalha, o exilio se espalhou por toda minha alma. Me sinto repetindo a história dos meus avós, bisavós, fizeram suas vidas no Brasil. Dentro de casa falavam idiomas que não o portugues, ouviam musicas de outras terras, no final da vida diziam que estavam cansados de falar portugues e outras tantas linguas, diziam que queriam falar a lingua deles, um olhar sempre perdido em direção ao mar, esperando sei lá, o navio que os trouxe voltar numa realidade surreal e leva-los para uma terra que não existia mais. Poderia contar uma historia muito bonitinha sobre eu gostar de aventuras, mas não consigo. Eu nasci numa ditadura militar, numa familia que veio de muitos lugares, vi meu país se libertar desta ditadura e tive um breve periodo de encantamento com o Brasil, até que as coisas voltaram a ficar bem ruins. Mas, ainda sim, era a patria que eu conhecia, onde eu cresci, o idioma que eu falo, a musica que eu canto mecanicamente, o tempero que eu uso,  tem dias que eu sinto falta até das maritacas chatas, que não paravam de fazer barulho as 6 da manhã. Eu procuro pelos céus aqueles passarinhos verdes encantadoramente irritantes. Minha pátria, uma flor mirrada, meio sem graça pra muitos, de raizes frageis que me foi arrancada. Ainda sim a flor que era única pra mim, num planeta distante.

Vivendo longe, eu vejo que as coisas ai não vao melhorar, me desculpem amigos que pedem para que eu volte para ajudar no coro. Mas daqui eu vejo o tamanho do problema. Aqui eu ando sem medo de ser estuprada, de alguem tocar meu corpo sem meu consentimento, de levar um tiro, de morrer por nada, de trabalhar como louca e não ter direito nenhum. É quase como viver uma vida num manicomio e de repente quando voce sai, voce percebe que os parametros que voce esta acostumado são surreais. A realidade que voce vivia não fazia sentido, mas fizeram voce acreditar que fazia e que ia melhorar: “olha vai ter pudim de sobremesa, mas os eletrochoques vão continuar!!” Eles diziam. Rola ter pudim mas não ter eletrochoque? Ai não … Ah mas vamos mudar isso, outros dizem…Então,meus carissimos, em nenhum manicomio do mundo os loucos ditam as regras, ninguem vai mudar nada, não pelo menos nos proximos seculos. Os vampiros só vão largar nossa jugular quando secarem a ultima gota de petroleo, minerio e agua potável.

Exilio é isto: um misto de peito rasgado, de peito vazio, de sentimento que voce fugiu da briga. É viver faltando um pedaço que voce nunca mais vai encontrar pra colocar no buraco que ficou. Voce vai construir sua vida em outro lugar, vai aprender outro idioma, vai cantar outras musicas, temperar sua comida com outros temperos, voce vai sobreviver, voce vai ter muitos momentos de felicidade e alegrias, mas vai ter alguns momentos olhando o mar esperando um navio em algum horizonte improvavel.

A vida segue, porque tem que seguir, porque eu quero seguir. Quando a saudade bate coloco Chico pra tocar, Mercedes Sosa, Tom Zé e tantos outros que me lembram um sonho de America Latina livre do Imperialismo.

 

 

sobre a vida

Heartbreak House

A maioria de nós cresceu vendo as mães sufocarem suas dores físicas e ou emocionais, sua vida era pautada em  fazer a casa funcionar e isto podia incluir calar as dores dos filhos se necessário, para não incomodar o pai. Então, chorar, gritar, reclamar ou qualquer outra reação num momento de dor era vista como indesejável, desagrável, que incomodava, era algo que com certeza geraria algum tipo de repreensão, cara feia da mãe, e na cabeça de muita criança o “não-amor da mãe”. Toda criança busca reconhecimento, amor, e pra ser amado muitos de nós aprendemos que tinhamos que ser “fortes”, engolir o choro, etc. Quando sufocaram o seu primeiro choro?

Acrescente a isto uma cultura judaico-cristã que sacraliza o sofrimento, desde que ele venha seguido seguido do perdão ao algozes, que tem na sua máxima expressão um messias que foi crucificado e  perdoou tudo. E, para cereja do bolo, temos uma sociedade atual onde voce só pode ser feliz e produtivo o tempo todo, selfies ostensivas de sua felicidade em mídias sociais são obrigatórias . Não se contempla mais nada para fora do Eu, além do Eu, um universo de narcisos. A soma destes fatores nefastos não tem como abraçar pessoas com dor, que sofrem, que ficam doentes, que se sentem tristes, afinal elas são tudo o que mais se despreza neste contexto que criou-se.

Não é a toa que eu em 20 anos de clínica contava nos dedos os profissionais com empatia para acolher pacientes que sofriam de dores cronicas. E mesmo na vida pessoal foram incontáveis as vezes que me vi completamente só, quando adoeci, via de regra para mim doença é solidão na certa, as pessoas somem.  Não fomos adestrados para lidar com gente doente, triste. Nos afastamos automaticamente , as vezes sentimos raiva até, não aceitamos a pessoa que “nao sabe ser forte e para de levar sua vida normalmente”, a despeito de doença ou qualquer outro fator limitante.

Entender o motivo de nossa incapacidade de empatia , muitas vezes requer mexermos nas feridas da infancia, e mesmo anos de terapia não sao suficiente para chegar perto delas. Se analisarmos bem a maioria de nós vivenciou formas variadas de violencia, as vezes fisica, as vezes verbal , as vezes na forma silenciosa da indiferença. Nossos pais reproduziram o que aprenderam e nossa sociedade via de regra é violenta, “só os  fortes sobrevivem”. E isto em tempos antigos podia fazer algum sentido, mas hoje não faz. Mexer nestas feridas dói, então assuminos discursos que “foi ruim, mas me fez ser quem eu sou (no sentido de ser alguem forte)” ou jogamos pra baixo do tapete, fingindo que não aconteceu. Ver alguem chorar, reclamar de dor, de tristeza é algo que fala diretamente a nossa criança que foi oprimida, reprimida. O que aprendemos a fazer com ela? oras, é feio chorar, é feio reclamar, se a pessoa não “melhora” o comportamento ficamos longe dela, retiramos aquele individuo do nosso “circulo bolha feliz e para fortes”. Obviamente não podemos lidar com a dor de todos no mundo, mas usando este argumento não estamos sequer acolhendo a dor dos mais próximos, filhos, esposa, marido, amigos próximos.

Imagino que se cultivassemos em nós a capacidade da empatia, poderiamos amar verdadeiramente,  para além disso é um terreno confuso onde muitas coisas podem ser chamada de amor, mas não são. Então, minha mente vagueia até um filme que assisti há muitos anos atrás de Sokurov. O filme, Mournful Unconcern  baseou-se na peça para teatro de Bernad Shaw, chamada Heartbreak House: A Fantasia in the Russian Manner on English Themes. Tanto na peça quanto no filme os personagens estão completamente desconectados com a relidade e entre eles. Durante todo filme se escutam barulhos de tiros e bombas da 1° e 2° guerra, alienados à tudo isto os personagens seguem suas histórias, eventualmente fechando as janelas/portas quando o ruído fica muito alto. O ápice do filme é, quando alguns dos personagens, fazem uma aula de Yoga na sala, nas janelas passam como num filme cenas da 1° e 2° guerra mundial, pessoas sendo mortas, tiros, bombas. Um deles fecha as janelas indiferente a tudo que se passa lá fora, o professor de Yoga pede para que eles respirem e concentrem-se em seus umbigos, ao que um personagem responde: “Mas não é o que temos feito até agora?”

Nós não acolhemos o outro pois nunca fomos acolhidos, nunca nos foi ensinado acolher, aliás foi nos ensinado algo que vai no sentido oposto, acolher alguém o torna fraco. E seguimos feridos e ferindo. Sair deste vórtice requer uma grande honestidade e coragem consigo mesmo para olhar o passado e resgatar o que se perdeu quando nosso primeiro choro foi calado.

soko
Mournful Unconcern Sokurov

 

uma pequena cena do filme, infelizmente não encontrei nenhuma com subtitulo.

sobre a vida

Pensamentos soltos no vento

São quase 3 da manhã. A previsão era de uma grande tempestade entre quinta e sexta-feira. Choveu, mas nem de longe a tempestade esperada. Coloquei minha filha para dormir, dormi junto. Acordei as 1 da manhã, talvez por ter dormido tão cedo. E por mais que o sono estivesse aqui dentro, o vento canta feroz, levou a tempestade embora e removeu o véu de nuvem, e dona Lua apareceu bailarina de tango lá no salão azul marinho.

Como dormir com esta lua e este vento me chamando? Sou noturna, maritma. Tento dormir, nada. Leio no celular uma carta linda, linda, com cheiro de mar de Caymmy para Jorge Amado, onde ele contava sobre uma nova canção que havia escrito sobre Iemanjá. Acabo levantando, abro a janela, o cheiro do mar no vento.

Iemanjá, minha mãe. Nasci em Porto Alegre, cidade de Iemanjá, assim como tantas outras cidades que são de Mãe Janaína no Brasil. Sempre fui dela, soube disso a primeira vez que vi o mar. Eu, menina de poucas palavras, fiquei horas conversando silenciosamente com o mar. Eu recordo vividamente este dia, do cheiro, do toque das ondas. Aqui não tem centro de Umbanda, com os atabaques que tocam , com o altar pra rainha do mar cheio de rosas brancas, tampouco festejam o dia dela. A primeira vez que eu entrei num centro de Umbanda, uma mulher me segurou e disse: voce é filha de Janaina, nunca entre no mar sem saudá-la. E não há uma unica vez que, quando eu pise na areia, na beira do mar, em silencio eu diga: Saravá Iemanjá, to aqui minha mãe pedindo permissão para entrar em tua casa, voltei para teu colo, voltei para ser ninada no barulho de tuas ondas.

O vento daqui tem sempre cheiro de mar. Eu queria escrever sobre outras coisas, mas só consigo sentir o cheiro do mar, pensar que queria fazer um altar para Iemanjá em meu jardim e que queria sentir a agua do mar banhando meus pés, depois encostar minha cabeça na areia, e ouvir lá ao longe, trazida pelo vento lá da Bahia viria, a voz demorada e calma de Caymmy. Suite dos Pescadores sussurrando com o vento nas ondas.

 

Travessia

sobre a vida

Minha nada pequena caixa de lágrimas

Meu tio morreu com 43 anos , foi a primeira pessoa próxima que eu perdi. Dele guardo uma parte muito terna de minha infancia. Ele mentia, inventava histórias absurdas e acreditava nelas, e eu ria muito. Ele se mantia sério para sustentar a história por dias, semanas. Me lembro dos almoços de família, quando os adultos resolviam deixar o ar chato e pesado, ele no sofá encostava a cabeça e dormia, dormia mesmo, as vezes não acordava nem para se despedir. Um dia meu pai voltou para casa e disse que meu tio estava no hospital, ninguém sabia o que era. Eu tinha, 12 anos, morávamos na mesma rua, eu passava todo dia na casa dele pra ele me contar as histórias mentirosas e malucas, naquele dia não houve história. Nunca mais houve nenhuma delas. Em poucos meses ele se foi, primeiro foi o rim a parar depois os outros orgãos. Não me deixavam ir no hospital por meses, mas no final deixaram. Ele me pareceu tão cansado, como se o obrigassem a ficar acordado no meio daquelas discussões familiares que ele sempre dormia. Ele queria dormir, ir embora, mas não o deixavam partir.

Me sentei ao lado dele em silencio, segurei na mão e perguntei sobre a última história que ele havia me contado meses atrás, eu disse: é mentira né tio? Ele riu e disse: eu nunca enganei voce ne? de todas as crianças voce era a única que sabia que era mentira. Nós rimos. Ele me contou que no pé da cama estava meu avô e o cachorro que ele tinha (ambos já tinham morrido), e que ele queria ir junto. Desta vez eu sabia que era verdade. Eu o beijei e disse meu adeus. Chorei quando sai do quarto no hospital. Mas seria indelicado desejar que alguém que quer partir, ficasse. Talvez porque desde pequena eu tenha sido separada de coisas e pessoas caras para mim, eu tenha aprendido a tratar com extrema delicadeza e ternura o momento da partida. É um momento solene, único.

Naquela noite minha mãe veio falar comigo, eu não era de chorar, então ela estranhou. É que eu não choro lágrimas que se podem enxergar. É dentro de mim que chovem tempestades e só as vezes elas transbordam pelos olhos. Meu tio morreu de uma doença auto-imune rara, a médica disse que haviam poucos casos na literatura, mas que qualquer um da família podia ter, se passássemos dos 50 anos não tinha mais risco, a doença não tem cura e ninguém que a desenvolve vive mais que 47 anos, mas por algum motivo depois dos 50 anos nunca houve um registro desta doença.

Depois disso eu vi muitas pessoas morrerem, pessoas próximas, meus cães que morreram no meu colo, pacientes em hospital. Nunca pensei se há algo depois, apenas que na hora da partida meu silencio viesse carregado de ternura e paz. De alguma maneira aqueles que se foram falaram comigo sobre seu desejo de partida, alguns arrastam meses para poder ir embora e não magoar aqueles que amam. A hora da partida é quando  derramamos o sumo do puro amor, que é deixar partir com ternura, é se despir de qualuqer sentimento egoísta e compreender que a hora do adeus é um momento único e especial.

Passei o dia pensando no meu tio. O motivo, há alguns dias meus rins estão apresentando problemas, parece ser uma infecção, bem dolorosa por sinal. Há alguns meses meus exames de sangue tiveram alterações nada sérias, mas atípicas para mim até então. Não acho que seja a mesma doença, os testes de sangue nao mostraram nada mais alarmante. Mas sim, passou pela minha cabeça. Eu sempre me interessei cientificamente por terapias alternativas, uma parte delas  realmente não faz sentido, outros seriam mais complementares. Mas há anos venho lendo artigos sobre causas psicossomáticas das doenças. Curiosamente nenhuma doença  vem isolada de um componente psicológico. É bem comum em pacientes com cancer ter um histórico de guardar magoas, amigdalites recorrentes em pessoas que não dizem o que está preso na garganta, rinites alergicas em pessoas que tiveram uma infancia opressora, furunculos em quem está sentindo muita ira/ódio e assim por diante. Nao descarto a causa física da doença: uma bacteria, imunidade baixa, genética, etc, mas é curioso observar que quase sempre o sentimento acompanha a doença física. Não tenho explicação para isto, apenas minha observação  clínica de 20 anos em clínicas multidisciplinares.

Os rins…eles filtram o sangue, retiram o que não serve que vai para a urina e o que serve volta a circular. O que vem do fígado (a raiva), coração (os amores correspondidos ou não) , pulmoes (as magóas, tristezas), tudo precisa passar por lá. Mas quando há muita coisa nossos filtros entopem, sobrecarregam, adoecem. Na Medicina chinesa disturbios nos rins estão ligados a emoções, a água, é chamado doença da agua. Talvez as lagrimas de toda minha vida tenham se acumulado nos rins. Eu nao consigo chorar, meus rins choram por mim. A cólica renal é como um coração pulsando nas suas costas, pulsando cheio de dor. Como se a dor a cada pulsada quisesse abrir caminho sob minha pele para explodir num grito do lado de fora. Se o choro tenta vir para os olhos ele para no coração, este caminho lhe é estranho e há um aperto , o choro volta a descer e bate com força contra minhas costas.

A maioria das pessoas pensa me conhecer, alguns me acham sarcastica, outros engraçada, outros acham que eu reclamo demais, me importo demais com coisas que não deveria, e outros tantos personagens que se inventam de mim por aí. Não sabem tanto da minha história pois estão preocupadas em contar as delas, e baseado nas histórias delas, nas suas opiniões decidem sobre quem sou. Eu rio apenas como meu tio ria de quem acreditava em suas histórias mirabolantes. Nós acreditamos naquilo que queremos acreditar, poucos são os que querem ver realmente atráves do véu. E, cada um tem seu tempo de aprender a escutar, uns nunca aprendem, precisam demais passar a vida contando a versão delas sobre o tudo e o nada.

Eu precisava escrever tudo isso para clarear minha mente. Escrever é minha terapia , já que falando perco mais da metade das minhas palavras pensadas. Preciso aprender a chorar. Baba significa pai no idioma Yoruba.

 

sobre a vida

Minha flor, minha cor, minha cara

Das lindezas que minha filha me ensinou:

“existem gente que traz flores na mão e tem gente que tem flor escondida no coração, estas são as flores mais bonitas”

“passarinhos brincam de pega-pega no céu”

“os cachorros latem pois estão sem as crianças deles, eles estão perguntando se nós vimos as crianças deles.”

“hoje eu assoprei um dente de leão, eu não sabia que voava tudo, pareciam bailarinas girando no vento que eu fiz”

“por que tem gente morando na rua se tem tanta casa vazia?”

“no mundo tem espaços para todos os deuses e deusas, mas eu gosto mais do Shiva, pois da boca dele saem estrelas e todo universo”

Minha flor, minha cor, minha cara, que sonha um dia em ser astronauta e ir lá longe, numa estrela onde está nosso cachorro que morreu e traze-lo de volta, e depois ir até a estrela ao lado, trazer os Beatles para cantar de novo por aqui no nosso planetinha azul.

Como escreveu Fernando Pessoa ” A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar as cousas (..) é a Eterna criança, o deus que faltava. (…) o divino que sorri e que brinca”

Sophia domina a arte do Kintsugi, antiga técnica japonesa para consertar objetos frágeis de cerâmica quebrados, rompidos ou com rachaduras usando a resina da árvore de laca e pó de ouro. E é assim que ela tem me ajudado a colar os pedaços cá dentro.

 

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poesia, sobre a vida

Sobre ouriços e solidão

das verdades doídas da vida

voce veio sozinho,

voce vai partir sozinho

neste meio tempo entre chegar e partir

embora rodeado de gente

voce estará quase sempre por sua conta.

voce só percebe isto quando dá merda,

as gentes-miragens-amigonas despararecem

e voce está sozinho no seu quarto.

isto te faz forte

as vezes amargo

e com certeza esperto

pra nao cair tao facilmente no conto da parceria, trabalho em grupo e qualquer outro engodo que tentem te enfiar.

Os ouriços sao criaturas marinhas e solitárias

precisam dos seus espinhos para se proteger

mas há quem consiga segura-los na mão,

Poucos percebem a delicadeza por debaixo do exoesqueleto

As almas comuns não veem mais que espinhos.

Mas , nós ouriços, pedimos veementemente

Não finjam interesse nos nossos espinhos,

Não finjam se importar se eles incomodam

Não nos tirem do mar para nos observar morrer lentamente.

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