poesia

Le rencontre des eaux

Acendi uma vela e a cravei sobre a neve

Esperei por longas noites e muitas vidas

E cuidei para que a chama queimasse

Cantei sortilégios antigos

Conjurei deuses inventados e malditos

Até que a neve se transmutou em primavera

E voce , tal qual um rio

Fluiu até meus lábios,

Inundou minha garganta

E fiz do teu gosto em mim

Nossa eternidade.

Em tuas águas escuras eu caminho.

pes
feet

 

 

 

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sobre a vida

A porta

 

Portuguese/English

“Traga todo seu Eu para sua porta.

Trazendo apenas uma parte,

Voce não trouxe nada.”

(Hakim Sanai)

Há tempos venho me questionando sobre os verdadeiros laços e de que eles são formados? Quando eu decidi que vinha morar na Nova Zelandia, longe de todos que eu conhecia, eu sabia que boa parte das minhas amizades terminaria no momento que o avião partisse. E mesmo podendo me conectar via mídias sociais, eu sei que alguns laços acabarão com o tempo.

Então, sobre aqueles laços que não se rompem nunca ou pelo menos não tão facilmente, de que são feitos? Creio que são feitos quando a essencia verdadeira de uma pessoa se conecta com a essencia verdadeira de outra pessoa. Quando olhamos nos olhos do outros, ainda que virtualmente, mas sem mascaras. Não precisamos vestir uma roupa que não é nossa, fingir comportamentos que não são nossos, estamos desnudos. Neste momento nos conectamos com a verdadeira Beleza e é impossivel não se apaixonar quando isto acontece. Nossa essência é algo como o Divino em nós, pois traz consigo o que há de mais verdadeiro e belo. E quando voce se conecta a verdadeira essência de outra pessoa, não importa o que ela veste, o carro que ela dirige, ou mesmo ela não ter carro, ou sua profissão, ou se tem dias ruins, ou se ela passa um longo tempo em silêncio, ou mesmo longe. Sempre haverá o respeito, a compreensão. Estes laços são difíceis de romper. São aquelas pessoas que mesmo passados anos quando se encontram é como se nunca tivessem se separado, e talvez nunca o fizeram de fato, os laços verdadeiros são como teias invisíveis.

E aí vem outro questionamento. Por que usamos tantas máscaras? Por que nos privamos de experiências tão gratificantes? O que nos machucou tanto a ponto de perdemos uma vida construindo muros ao invés de criar laços? Cada um de nós tem um profundo instinto para esconder sua essencia. Nos sentimos protegidos quando escondemos. Não ser visto é seguro. Este é o propósito do Ego; criamos uma máscara social por detrás da qual nos escondemos. Nós reunimos nossas experiências num conjunto de narrativas e apresentamos esta criaçao de patchwork ao mundo, dizendo: “Este sou eu. Não procure mais nada”. A formação e a modificação desta mascára do ego torna-se o principal trabalho da maioria de nossas vidas, e também esquecemos facilmente que não somos esta máscara, que , de fato, somos muito maiores e menos facilmente definidos. O ato de se esconder torna-se institucionalizado na consciência.

Por esta razão precisamos descobrir por que escondemos e se queremos continuar escondendo. Muitas vezes a manutençao desta máscara é tão dolorosa que não vale a pena. Muitas vezes a manutenção das máscaras se torna emocionalmente tóxica. A plenitude do que somos é muito maior quequalquer história pura onde queremos empacotar tudo. Não podemos truncar partes de nós mesmos para forçar um encaixe confortável na narrativa que queremos dizer a nós mesmos. Devemos morar na nossa totalidade. Devemos reivindicar nossa história, todos nossos sentimentos e pensamentos, o doloroso e o celestial juntos.

E então, vamos até o limiar. Hesitantes, nus, vulneráveis até esta porta da nosso verdadeiro Eu. É quando a magia acontece. A coleção grande e pesada de vitórias e feridas que trouxemos conosco vem se concentrar pela primeira vez e temos uma visão de nós mesmos, todo nosso ser, vivo intenso, integral dentro do universo imenso vivo. O que nós hesitamos ver em nós mesmo se torna uma imagem de Beleza e, sim, a  felicidade majestosa se derrete e se mistura com a majestosa beleza ao nosso redor.

Todos nós desejamos este encontro precisamente para curar a profunda dor da separação. Se chegarmos com menos de todos seres, se chegarmos apenas com fragmentos de nosso ser, como podemos encontrar a cura?

Traga todo seu Eu para sua porta.

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“Bring all of yourself to his door:

bring only a part,

and you’ve brought nothing at all”

(Hakin Sanai)

I have been questioning myself for a long time about the true bonds and what they are made of ? When I decided to live in New Zealand, far from every friend/family that i had, I knew that most of my friendships would end the moment the plane left. And even though I can connect via social media, I know that some bonds will end in a few time.

So, about those bonds that never break, or at least not so easily, what are they made of ? I believe they are made when the true essence of a person connects with the true essence of another person. When we look into the eyes of others, although virtually, but without masks. We do not have to wear clothes that are not ours, pretend to act with behaviors that are not ours, we are naked. At this moment we connect with the true Beauty and it is impossible not to fall in love when this happens. Our essence is something like the Divine in us, because it brings with it the most true and beautiful that exists. And when you connect the true essence of another person, no matter what they wear, the car they drive, or even they do not have a car, or their profession, or if they have bad days, or if they  spend a long time in Silence, or even far away. There always will be respect, understanding. These kind of bonds are difficult to break. They are those people who, even though they have been apart for years, it was as if they had never separated , true bonds are like invisible webs.

And here comes another questioning. Why do we use so many masks? Why do we deprive ourselves of such gratifying experiences? What has hurt us so much that we have lost our lives building walls instead of creating bonds? We each have a deep seated instinct to hide. We feel protected when we hide. To not be seen is to be safe. This is the entire purpose of the ego; we created a social mask behind we hide ourselves. We gather our experiences, stitch them together with a narrative, and present that patchwork creation to the world, saying: “This is me. Don’t look any futher”. The formulation and modification of this ego-mask becomes the primary work of most of our lives, ans we too easily forget that we are not that mask, that we are, in fact, something much more bigger ans less easily defined. The act of hiding becomes institutionalizes in the awareness.

For this reason we need to find out why we hide and if we want to continue hiding. Often the maintenance of this mask is so painful that it is not worth it. Often keeping masks becomes emotionally toxic. The fulness of all that we are is much bigger than any neat story we want to pack it all into. We can’t truncate parts of ourselves to force a snug fit into the story we want to tell ourselves. We must dwell in our entirety. Anything else becomes self-dismemberment. We must claim all of our history, all our feelings and thoughts, the painful and the celestial all together.

And then we step up to the threshold. Hesitant, naked, vulnerable, we step up to this door of our true Self. That’s when the magic happens. The large, unwieldy collection of victories and wounds we’ve brought with us comes into focus for the first time and we have a vision of ourselves, our whole selves, alive and immense, integral within the living immense universe. That which we were hesitant to look at within ourselves becomes an image of beauty and, yes, majesty blissfully melting into the majestic Beauty all around us.

 We all, on some level, crave this encounter precisely in order to heal the deep pain of separation. If we come with less than our whole selves, if we come with only fragments of our being, how then can we find healing?

Bring all of yourself to his door

 

 

 

sobre a vida

Era uma vez/ Once upon a time

Portuguese/English

Quando eu tinha 3 anos e meio minha avó materna foi morar em nossa casa. Ela tinha um dos nomes mais lindo do mundo, ela se chamava Flora. Toda noite antes de dormir, ela me contava estórias. Contos de fadas, de bruxas, princesas, herois, heroinas, monstros e outros seres encantados. Cada noite eu pedia um conto diferente. Meus contos preferidos eram as estórias das Mil e Uma Noites.

Uma noite os contos que ela sabia acabaram. Então ela passou a repetir contos que eu já conhecia. Eu reclamei. Minha avó, então pegou um livrinho que andava com ela pra todo lado, que continha orações e estórias da vida dos santos. Passadas algumas noites eu disse a ela que não estava gostando tanto daquelas estórias, elas eram muito tristes e todos eles morriam no final. Eu perguntei à ela se não podiamos inventar estórias.

Naquela noite nasceram duas contadoras de estórias e inventoras de palavras que não existiam.

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When I was 3 and a half years old my  grandmother went to live in our house. She had one of the most beautiful names in the world, her name was Flora. Every night before i go to bed she told me stories. Fairy tales about witches, princesses, heroes, heroines, monsters and other enchanted beings. Each night I asked for a different story. My favorite stories were the Arabian Nights stories.

One night the tales she knew ended. Then she began to repeat stories I already knew. I complained. My grandmother then took a little book that she always carried with her, which contained prayers and stories about the lives of the saints. A few nights later I told her that I was not enjoying the stories so much, they were very sad and they all died at the end. I asked her if we could create our own fairy tales.

That night were born two storytellers and inventors of words that did not exist.

 

Musica, sobre a vida

Blowin’ In The Wind

Há um parque em Auckland que fica no bairro de Orakei, e ao lado deste parque há um cemitério. A região foi alvo de disputas entre ingleses e os maoris, há uma longa história de negociações e interepretações errados de ambos os lados. Mas enfim, o fato é que hoje em uma parte do bairro há um parque e ao seu lado um cemitério antigo.

Já passamos algumas tardes lá. E em algumas eu pude observar aquele homem de longe. Leva consigo sempre uma mochila, cabelo desalinhado de morador de rua, um andarilho. Ele sempre está no cemitério, as vezes parece varrer as folhas que caem e se acumulam, esquecidas por sobre as lapides. As vezes ele parece falar com alguém, contar histórias, fica um bom tempo conversando em frente a uma lápide, e embora esteja longe o suficiente para que eu não escute suas conversas, elas me parecem muito cativantes, ele gesticula gentilmente e sorri, suas mãos parecem passaros voando. Em outros momentos ele deixa de conversar e começa a dançar, depois pára e fica quieto, numa postura silenciosa, olhar fixo, calmo. E se vai.

Com quem será que ele conversa? Qual sua história? Será que ele sabe que o tenho observado com muita curiosidade?

Ontem, depois de uma noite insone, eu estava no parque, esperando o tempo passar, até dar o horario de bucar minha filha na escola. Sentada ao sol para diminuir o frio, vi que ele dançava por entre os tumulos, eu sentada ao longe lia meu livro e durante algumas pausas o olhava. Ontem ele conversou com mais de um tumulo. Foi então, que pela primeira vez ele ao ivés de ir para o lado que costuma ir embora, mudou de direção. Veio na direção que eu estava. Ao passar por mim me deu Bom Dia e seguiu, preso a sua mochila um pequeno celular que tocava Bob Dylan.

Hey ! Mr Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no place I’m going to
Hey ! Mr Tambourine Man, play a song for me
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you.
Though I know that evenin’s empire has returned into sand
Vanished from my hand
Left me blindly here to stand but still not sleeping
My weariness amazes me, I’m branded on my feet
I have no one to meet
And the ancient empty street’s too dead for dreaming.

Ah este Universo que fala atráves da música…

culinária, Gastronomia, Receitas, receitas&memories

Arroz Pilav (receita armênia)

Existem muitas variações do arroz pilav. Se voces procurarem na internet vão encontrar varias maneiras de prepara-lo  a moda indiana,paquistanesa, e outros países do Oriente Médio, também na culinária francesa há uma receita de arroz pilav, porém elas variam imensamente de uma para outra. A receita que eu estou compartilhando é o arroz pilav feito segundo a culinária armênia. depois vou corrigir as medidas e colocar o que falta em gramas e ml, mas basicamente a proporção é o de 2:1 de caldo de carne para o arroz.

Ingredientes:

150 gr de manteiga (tudo isto de manteiga?? sim tudo isto, manteiga é vida!!)

2 ninhos do macarrão capelli d’angelo (aquele bem fininho)

2 xícaras de arroz branco agulhinha

4 xícaras de caldo de carne (caseiro, se for tablete de caldo de carne, dilua 2 a 3 tabletes em uma xícara de agua quente e complete com mais 3 de agua)

QB sal (no caso de usar tabletes de caldo de carne , dispense o sal)

2 colheres de sopa de pimenta síria

Modo de Preparo:

1. Numa panela, em fogo alto, derreta a manteiga, assim que ela começar a soltar um pergume de amendoas, coloque o macarrão, quebrando os ninhos  de com as mãos , de modo que fique picado grosseiramente. Mexa até que o macarrão adquira uma cor caramelo escuro

2. Coloque o arroz e mexa para misturar com o macarrão, e fritar levemente.

3. Coloque o caldo de carne quente. Eu prefiro ter caldo de carne preparado em casa do que os tabletes de caldo de carne. Particularmente acho bem mais saborosos e saudáveis. Tenho sempre no congelador varios potes de 500 ml de caldo de carne e forminhas de gelo com caldo (para preparações menores).

5. Acrescente sal a gosto (o caldo de carne feito em casa não leva sal, já os tabletes tem muito sal, neste caso dispense o sal). Acrescente a pimenta síria . Na receitra coloquei 2 colheres de sopa, mas se preferir menos pode colocar, eu gosto demais do sabor desta pimenta.

6. Deixe cozinhando em fogo alto  com a panela destampada. Leva uns 15 minutos.

O arroz pilav acompanha muito bem kibe de forno ou frito, kefte de cominho, paleta de cordeiro.

arroz pilav

 

sobre a vida

Das teias invisíveis que nos unem

Existem algumas datas que eu respeito com devoção, os solsísticos estão entre elas. Hoje no hemisfério sul inicia-se o solstício de inverno, a noite mais longa do ano. Isto tem um significado profundo Os povos antigos esperavam o sol  nascer depois desta longa noite , o nascimento do sol significava o início de um novo ciclo, a Roda da Vida que girava. Nesta noite fogueiras eram acesas, casas eram iluminadas com tochas, velas como forma de trazer a luz de volta. Espiritualmente significa nosso mergulho nas profundezas da alma, onde somente a busca conhecimento (luz) nos guiará por esta longa noite e fará o Sol (sabedoria) brilhar novamente. O tempo em que é preciso morrer para renascer, nos fecharmos, meditarmos, silenciar para escutar.

Todos os solsticios eu sonho com minhas antepassadas. E são sonhos sempre especiais. Nesta noite, minha mãe, minha avó e outras mulheres que já se foram arrumavam uma casa, varriam o chão, colocavam lençóis nas camas, comida era preparada na cozinha, símbolos de proteção eram colocados na porta de entrada  e em árvores que ficavam em volta da casa. Então, perguntei a minha avó o que estava fazendo, ela me respondeu: estamos arrumando uma casa para voce e sua familia, no tempo certo ela estará pronta.

Eu me mudei de país há 3 semanas, estou num apartamento provisório, muito confortável, porém não é minha casa. E até agora nenhuma das casas que fomos ver nos agradou, estamos com um orçamento apertado e tentando achar o melhor custo beneficio , uma casa perto de uma escola boa para Sophia, perto de transporte publico e que seja, nao perfeita, mas confortável.

Continuaremos a busca por uma casa para morar e é bom saber que, de algum modo, teias invisiveis nos guardam e nos acolhem. Feliz solstício de inverno a todos do hemisfério sul, que nesta longa noite possamos encontrar uma luz para nos guiar e que nunca percamos a esperança que o Sol voltará a nos aquecer, ainda que a noite seja longa e fria. Que aceitemos a Escuridão como parte necessária para a  Luz, e que o inverno seja proveitoso para meditarmos , para alimentar o espirito e prepara-lo para os meses que se seguirão.