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E Tu terás estrelas como ninguém…


Minha avó

Dizem que minha avó foi a mulher mais bonita de sua cidade. Ainda pequena quando eu ia até Uruguaiana, todos me falavam: “Tu nem imaginas como tua avó era bonita, ela tinha olhos e cabelos negros e a pele bem branquinha, assim como tu”, era quase como uma lenda,  e eu me punha toda orgulhosa de ser neta  de Dona Flora.

A beleza da minha avo querida, não estava só por fora, esta é a verdade, ela era linda demais por dentro.

A beleza dela estava em sua coragem de viver cada momento da vida com graça, com intensidade, com paixão.

Aos 16 anos, ela estava prometida em casamento a um homem mais velho. Mas ela não o amava, ela amava meu avô, Armando.
Então faltando uma semana para o dito casamento, ela foi trabalhar no telégrafo, como sempre fazia, mas ao invés de cortar pela praça principal da cidade, virou na rua até a casa do meu avô e disse-lhe: “eu não vou me casar com outro, mas voce tem que me levar agora”.

Ela não tinha levava consigo nem roupas, nem dinheiro, só levava o vestido do corpo, o perfume que meu avô havia lhe dado em segredo e um amor imenso.

Então ela entrou no carro do meu avô e eles foram morar em sua fazenda.Fiacaram escondidos por la durante 4 anos.
Lá eles tiveram 3 filhos, entre eles a minha mãe, e não tinham se casado nem na Igreja nem no civil, e foi um escandalo  em toda cidade. O pai dela, mesmo no leito de morte, negou-se a falar com minha avó uma última vez. Uma mágoa que ela guardaria por toda a vida, como uma vez me disse.

Depois eles voltaram a cidade e se casaram, e tiveram mais 3 filhos, sendo que um morreu ainda bebe. Ela cuidou de netos, irmãos, ajudou tanta gente que nem sabemos. Em sua casa em Uruguaiana, ela ensinava senhoras pobres a costurar, elas podiam levar seus filhos e todos almoçavam e lanchavam lá mesmo. No final ela gastava muito mais dando de comer a tanta gente que   o curso de costura nunca deu lucro. Ela sabia disso, mas era uma forma de ajudar aquelas senhoras sem ferir-lhes o orgulho, era o que ela me dizia.

Ela ficou viúva cedo e nunca mais se casou. Uma vez ela me disse , que depois de ter vivido um amor tão grande quanto o que ela tinha pelo meu avô, qualquer outro amor seria insignificante demais. Ela me contava que amava meu avô com seu coração e sua alma , e quando ela falava dele seus olhos brilhavam, era um amor para além desta vida. E eu sempre torci para um dia viver um amor assim, para reconhecer nos olhos de outra pessoa, o amigo, o companheiro de tanto tempo, de tantas vidas.

Da minha vó eu me lembro:

– do perfume de rosas que ela usava.
– do pure de batata que ela me fazia no meio da tarde(eu pedia de pura gula mesmo)
-das manhas na cozinha como sua ajudante
-do travesseiro pequenino que ela fez para mim quando eu era bebe, e que ainda guardo.
-do seu olhar para mim, aquele olhar que transbordava em amor
-do seu abraço apertado
-das blusas de lã que ela mesmo fazia para mim, eram tão quentinhas …
-das empadinhas que dividiamos todos os dias depois que eu saia das aulas de ballet
-das histórias contadas, e muitas vezes inventadas por ela, para que eu dormisse
-de quando eu tinha 6 anos e fui morar longe dela, lembro que nos prometemos falar nos sonhos todas as noites ( promessa que nunca quebramos, ate hoje sonho com ela)
-de quando eu aprendi a escrever , e toda semana mandava uma carta para ela, sem falhar uma semana.
-de quando iamos a praia e eu tentava com minhas maõs tao pequenas de criança , levar espuma do mar pra ela, mas a espuma sempre escorria pelos meus dedos, e ela ria se parar e me abraçava.
-ela me ensinou a observar o céu, o vento, as plantas, colocava tango para eu ouvir, me contava historias de fantasmas para ver se eu ficava com medo, mas eu só ria e me escondia dela.
-me ensinou a cuidar das plantas, das pessoas.
-minha mãe contava que assim que nasci, foi minha vó que salvou minha vida com os chas ,remédios  e as rezas que só ela sabia fazer, porque nenhum remédio dado por medicos estava fazendo efeito.
-ela me chavama de lírio-lírio, dizia que eu era branquinha como um lirio, que era sua flor predileta.
-ela me contava estórias sobre eu ter vindo de uma estrela, e quando eu perguntava qual delas, ela me apontava as três Marias,e eu dava  risada dizendo que ia ser astronauta e iria até lá.E toda noite quando eu as vejo no céu, eu me lembro desta estória.
-ela me ensinou tanta coisa, mas principalmente a ser forte sem perder a graciosidade, a leveza.Ela era divinal, seu olhar era como um imã,ela era uma gigante de espírito.

Na noite anterior a sua partida, ela me apareceu num sonho, ela me dizia : hoje estou indo me encontrar com seu avô. Ele é aquele que só voce vê(porque eu sempre via meu avô e conversava com ele,quando era pequena,mas ninguém acreditava), eu estarei com ele, e nós sempre estaremos contigo.Meu coração ficou apertado, minha mãe e minha rimã também sonharam com ela aquela noite.Mas eu não contei nada sobre oque me foi dito.

Na manhã do dia seguinte minha vó morreu. Minha mãe me ligou, eu ja sabia mas deixei que ela falasse ,ela estava triste e me disse:” é tão estranho ficar sem mãe…” (alguns anos mais tarde eu saberia a exata medida desta ausência,quando minha mãe também se foi).
E eu pensei, também é estranho ficar sem minha avó. Porque ela não era só uma avó, era meu anjo da guarda. E neste dia,quando me avó se foi, no meu coração, ficou faltando um pedacinho, uma saudade física do beijos e abraços dela, daquele olhar que me entendia sem que eu dissesse uma unica palavra.

Fora isso minha avó esta sempre comigo, sua voz, como uma cançao aos meus ouvidos, vem com os ventos.Um elo mágio  nos une para sempre. Nos momentos mais difíceis, até quase pude sentir sua mão em minha mão segurando com força, e suas asas de anjo me envolvendo.


Minha avó-anjo-mãe-amiga-mestra, as palavras faltam, o amor por ela derrama-se no infinito.


” As pessoas tem estrelas que não são as mesmas…Tu porém terás estrelas como ninguém.
Quando olhares o céu a noite, porque habitarei nele, porque numa delas estarei rindo, então seŕa como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir!” (Antoine de Saint-Exupéry)

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poesia

Com voces, o eterno poetinha

 

Elegia Lírica  (Vinicius de Moraes)

 

(…) A minha namorada é tão bonita, tem olhos como besourinhos do céu

 Tem olhos como estrelinhas que estão sempre balbuciando aos passarinhos…

É tão bonita! tem um cabelo fino, um corpo menino e um andar pequenino

E é a minha namorada… vai e vem como uma patativa, de repente morre de amor

Tem fala de S e dá a impressão que está entrando por uma nuvem adentro…

Meu Deus, eu queria brincar com ela, fazer comidinha, jogar nai-ou-nentes

Rir e num átimo dar um beijo nela e sair correndo

E ficar de longe espiando-lhe a zanga, meio vexado, meio sem saber o que faça…

A minha namorada é muito culta, sabe aritmética, geografia, história, contraponto

 E se eu lhe perguntar qual a cor mais bonita ela não dirá que é a roxa porém brique.

Ela faz coleção de cactos, acorda cedo vai para o trabalho

E nunca se esquece que é a menininha do poeta.

(…)

 É doce! gosta muito de mim e sabe dizer sem lágrimas:

 Vou sentir tantas saudades quando você for…

É uma nossa senhorazinha, é uma cigana, é uma coisa

Que me faz chorar na rua, dançar no quarto, ter vontade de me matar e de ser presidente da república.

É boba, ela! tudo faz, tudo sabe, é linda, ó anjo de Domremy!

Dêem-lhe uma espada, constrói um reino ; dêem-lhe uma agulha, faz um crochê

Dêem-lhe um teclado, faz uma aurora, dêem-lhe razão, faz uma briga…!

E do pobre ser que Deus lhe deu, eu, filho pródigo, poeta cheio de erros

sobre a vida

Hanami

O significado da flor da cerejeira (Sakura), considerada a flor-símbolo do Japão provém de lendas e crenças. Sakura é uma modificação do nome sakuya, proveniente da princesa Kono-hana-sakuya-hime, a qual os japoneses veneravam no topo do Monte Fuji. Acredita-se que a princesa tenha caído dos céus sobre uma cerejeira.  A cerejeira também era associada ao samurai cuja vida era tão efêmera quanto à da flor.

Hanami é o festival  das cerejeiras. Onde se comemora sua floração, onde se lembra sobre a efemeridade de tudo, momentos,  pessoas, ate mesmo a brevidade da vida. As flores são o símbolo da impermanência.

As cerejeiras simplesmente caem. Confiantes no momento de renascer um dia.Suas pétalas, seu perfume delicado, viajam com os ventos, sem medo. As flores sabem que este mundo é impermanemte. É como o reflexo da lua na água. Tudo um dia será devastado pelos ventos da mudança.

A lição das flores de cerejeiras é mostrar que  temos  o presente, nada além dele. As flores não empalidecem, nem murcham antes do tempo, por medo de que um dia irão perecer.  O apego traz sofrimento.

A humanidade não aprendeu ainda a  lidar com a impermanencia. Temos necessidade de viver no passado, ou no futuro, precisamos possuir  pessoas, momentos precisam ser eternos e imutáveis para sentirmo-nos seguros. A verdade é que não  podemos possuir o passado, nem futuro, nem pessoas, e sofremos pelo que não podemos reter em nossas vidas.

Então comecei a refletir sobre tudo isso, desnudar minha alma de suas mascaras, para entender de que forma e  porque  o apego traz sofrimento em minha vida. Quais são as situações, pessoas, sem as quais eu acredito não poder ficar. Porque o “possuir” é uma ilusão, no fundo todos  sabemos disto e esta é a razão de todo sofrimento.  Ainda que trancafiado no subconsciente, existe o medo de perda, ainda que não o admitamos para ninguém.

Já sofri por medo de perder pessoas, medo de sair de uma situação confortável, ate mesmo por medo do desconhecido, me apeguei, mais de uma vez, a  pessoas que me fizeram muito infeliz. E por quê?

O apego nos faz cegos, nos traz a dor, faz com que vivamos num mundo ilusório. Ao passo que, o desapego nos conduz a plenitude da vida, nos leva a campos onde a liberdade cavalga soberana, infinita. Nossas almas são como flores tenras à mercê dos ventos do Destino. E é somente quando nos despimos de tudo, é que nossa alma pode voar com toda sua graça. Neste estado de nudez espiritual descerraremos nossos olhos e poderemos ver o Divino que permeia todas as coisas.

Hoje eu convidei minha alma para caminhar sob o sol sem suas máscaras, a fazer do desapego uma prática diária. Entregar meus dias com  confiança nas mãos do Criador, nada pode me se tirado, porque nada me pertence. Escolho a estrada que irei trilhar, caminho por ela, mas ela não me pertence. O que impede você de fazer o mesmo?

Lembremo-nos da impermanência todos os dias, para nos auxiliar a um despertar de  uma vida mais lúcida e feliz.

carpe diem, sobre a vida

Como água para chocolate

“A minha avó tinha uma teoria muito interessante, dizia que embora todos nasçamos com uma caixa de fósforos no nosso interior, não os podemos acender sozinhos, precisamos, como na experiência, de oxigénio e da ajuda de uma vela. Só que neste caso o oxigénio tem de vir, por exemplo, do hálito da pessoa amada; a vela pode ser qualquer tipo de alimento, música, carícia, palavra ou som que faça disparar o detonador e assim acender um dos fósforos. Por momentos sentiremo-nos deslumbrados por uma intensa emoção. Dar-se-á no nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passa o tempo, até vir uma nova explosão que o reavive. Cada pessoa tem de descobrir quais são os seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se dá quando um deles se acende é que alimenta a alma de energia. Por outras palavras, esta combustão é o seu alimento. Se uma pessoa não descobre a tempo quais são os seus próprios detonadores, a caixa de fósforos fica úmida e já não poderemos acender um único fósforo.
Se isso chegar a acontecer a alma foge do nosso corpo, caminha errante pelas trevas mais profundas procurando em vão encontrar alimento sozinha, não sabendo que o corpo que deixou inerte, cheio de frio, é o único que poderia dar-lho.”

Há muitas maneiras de pôr uma caixa de fósforos úmida a secar, mas pode ter a certeza de que tem solução.
Tita deixou que algumas lágrimas deslizassem pelo seu rosto. Com doçura John secou-lhas com o seu lenço.
– É claro que também é preciso ter o cuidado de ir acen­dendo os fósforos um a um. Porque se por uma emoção muito forte se acendem todos de uma vez produz-se um brilho tão forte que ilumina para além do que podemos ver normalmente e então aparece aos nossos olhos um túnel esplendoroso que nos mostra o caminho que esquecemos no momento de nascer e que nos chama a reencontrar a nossa origem divina perdida.