contos

Los camiñitos del amor

Numa manhã outonal de Buenos Aires, uma senhora me pediu ajuda  para atravessar a rua e descer as escadarias do metro. Percebendo meu sotaque diferente para o espanhol me perguntou de onde eu era. Contei-lhe que era do Brasil. Ela me sorriu e perguntou se eu queria ouvir uma história. Ela segurou no meu braço e fomos andando como antigas conhecidas.

Quando ela tinha 16 anos, costumava fugir todos os sabados a noite pela janela de casa e ir para dançar tango escondido dos pais. Naquela epoca, dançar tango era algo para a população mais marginalizada, por assim dizer, havia muitas prostitutas, gays, imigrantes recém-chegados e pessoas mais pobres. Já ela pertencia a uma família distinta de Buenos Aires, moças como ela não iam a locais assim. As casas de tango ficavam em Camiñitos, um bairro até hoje composto por casas mais simples.

Foi numa destas noites fugitivas que ela conheceu o que me contou ser o amor de sua vida. Ele era músico, eles dançaram toda a noite, e assim se deu na outra semana. Ele tocava violino, ele era brasileiro. Por um mês , nas noites de sábado eles dançaram tango. Porém, houve um sabado triste pois seu amado não estava mais lá, a banda havia sido substituida. Ela deixou de ir dançar tango. Me contou que passou muito tempo sem dançar a musica que tanto “fazia seu coração pulsar no ritmo do amor “(palavras dela).

Os anos passaram, ela se casou, mas a memória daquele amor sempre andava com ela, num pingente que havia ganho do brasileño. Ela teve filhos, teve netas, ficou viúva, viajou muito e aos 78 anos aprendeu a usar computador e internet. Com ajuda da neta, encontrou alguém no Brasil, que parecia ser parente de seu antigo amor.

Era o neto dele. A moça contou a história da avó para o rapaz. Alguns dias se passaram, ele respondeu a mensagem que tinha consigo uma carta, escrita pelo avô, que já havia falecido. A carta guardada em uma caixa com uma foto do avô em Buenos Aires, e outras lembranças. Uma carta para uma mulher, escrita em espanhol. Uma carta que nunca foi entregue pois ele não tinha o endereço dela. A carta com a foto do avô chegaram alguns meses depois em Buenos Aires.

A esta altura já tinhamos descido a escadaria do metro há muito tempo, mas eu quis ficar até o fim da história, iámos em direção contrária.  Já estávamos para nos depedir, ela abriu a bolsa e tirou um envelope amarelado e mostrou a carta com a foto dele, disse que carregava sempre consigo. Eu sentei no trem com olhos mareados até o meu destino e em todo tango que escuto vejo os dois dançando numa outra realidade, onde os sabados fugitivos nunca acabaram.

“Caminito que el tiempo ha borrado
que juntos un día nos viste pasar…” (Carlos Gardel, Camiñito)

 

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Brasileiros vivendo na Argentina, Buenos Aires, viver na Argentina

Buenos Aires , um rio de perfumes

Sabe aquele ditado: a gente se conhece pelo cheiro??? Sou eu, de longe o olfato é meu sentido mais aguçado. Sou capaz de dizer os temperos de uma comida pelo cheiro, sem nem provar. Perfumes, cheiros me remetem a boas e más lembranças e sao capazes de despertar sentimentos em mim. Neste aspecto Buenos Aires tem me presenteado de maneira estupenda!! Aqui as pessoas sao perfumadas!!!! Adoro sentir a variedade de perfumes deliciosos. E as casas !! Um de meus fetiches olfativos é encontrar apartamentos térreos ou casas cujas janelas estejam abertas, mesmo que seja uma fresta. Casas antigas contam suas historias através de perfumes antigos que pairam há anos por ali, esperando por serem descobertos, gosto de imaginar sobre a vida de quem lá morou, só adivinhando atráves do sussurro dos perfumes. Parece estranho bem sei, mas assim sou eu. E o cheiro das refeiçoes caseiras?? Me remete de imediato a minha infância, que cheiro nostálgico, que nina e acalenta!!! Estamos no inverno, o cheiro de vento frio , que vem de longe, me brinda com suas imagens… Uma terra de gelo, deserta, silenciosa. O perfume de San Telmo, suas casas antigas,  com o suor dos dançarinos de tango pelas ruas, mesclado aos objetos antigos expostos pelos mercadores, os pratos típicos vendidos por ambulantes , é uma doce  melodia apaixonada, é uma cantiga que parou no tempo. Caminitos com suas casinhas coloridas ainda guarda o cheiro forte e ocre dos trabalhadores que la habitaram, um perfume mesclado com o cheiro do rio que corre cerda dali, o perfume barato e forte dos dançarinos de tango, o cheiro da bebida dos bares, um perfume duro mas de certa forma atrativo pela sua força. Barrio Chino, com os perfumes das especiarias de toda parte do mundo, o perfume de chás exóticos, de frituras pelas ruas, nas esquinas, suas pimentas, seus peixes, o melhor lugar para se comprar ingredientes para quem , como eu, ama cozinhar.

Perfume é algo feminino, que envolve, depois esvanece, sussura e se vai. E assim é Buenos Aires.