Tag: poesia

Monólogo de Orfeu, by Vinicius de Moraes

Uma das mais belas poesias já escritas

Mulher mais adorada!
Agora que não estás,
deixa que rompa o meu peito em soluços
Te enrustiste em minha vida,
e cada hora que passa
É mais por que te amar
a hora derrama o seu óleo de amor em mim, amada.

E sabes de uma coisa?
Cada vez que o sofrimento vem,
essa vontade de estar perto, se longe
ou estar mais perto se perto
Que é que eu sei?
Este sentir-se fraco,
o peito extravasado
o mel correndo,
essa incapacidade de me sentir mais eu, Orfeu;
Tudo isso que é bem capaz
de confundir o espírito de um homem.

Nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga,
esse contentamento, esse corpo
E me dizes essas coisas
que me dão essa força, esse orgulho de rei.

Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música.
Nunca fujas de mim.
Sem ti, sou nada.
Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada.
Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível!
A existência sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos.
Tu és a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo,
minha amiga mais querida!

Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura!
Quem poderia pensar que Orfeu,
Orfeu cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres –
que ele, Orfeu,
Ficasse assim rendido aos teus encantos?

Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho
que eu vou te seguindo no pensamento
e aqui me deixo rente quando voltares,
pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo

Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo.

La Pluie

“Cuando llovía me entraba el agua hasta el alma” Julio Cortázar

A cantora Yasmin Levy nasceu em Jerusalém. É filha de um folclorista de nome Yitzhak Levy, nascido em Izmir na Turquia, ele colectava canções em ladino (a língua dos judeus da Península Iberica), e era um grande estudioso da história dos judeus sefaradi (judeus oriundos da regiao da Peninsula Iberica e Oriente Medio). A obra de Yasmin inclui músicas em ladino, espanhol, hebraico, árabe e turco. Os seus primeiros discos continham principalmente canções tradicionais ladino, mas com o tempo Yasmin começou a evoluir na direção da música flamenco e por isso foi muito criticada pela comunidade sefaradi mais tradicional.

Para ela a musica sefaradi é muito bela, porém lhe falta ação, é muito fragil, uma musica que se canta com a cabeça, e ela queria um estilo musical que cantasse com o coração. Então, passou a incorporar a musica flamenca a seu estilo.Como disse numa entrevista ao jornal El Pais: “se continuasse cantando de maneira tradicional estaria ainda cantando com minha mãe na cozinha”.

Esta canção do video Yasmin escutou pela primeira vez aos 8 anos em uma fita cassete que se perdeu. Ela buscou a musica por 25 anos até encontra-la atraves de um iraniano que lhe presenteou com este tesouro.

“Tus ojos de plata gris
Hacen mi alma volar
Como un colibri
De aqui a la eternidad”

To my true Love

I’m the wind upon your shoulder
Whispering magic words through the night
Telling you Old Secrets
Building a rainbow bridge
Between our hearts

Since the first moment I knew,
And I waited for your kiss,
Waited for the bliss
Like dreamers do

This love conjures me wings
Plays like a symphony
Smells like sympathy
Tastes like poetry



Com voces, o eterno poetinha

 

Elegia Lírica  (Vinicius de Moraes)

 

(…) A minha namorada é tão bonita, tem olhos como besourinhos do céu

 Tem olhos como estrelinhas que estão sempre balbuciando aos passarinhos…

É tão bonita! tem um cabelo fino, um corpo menino e um andar pequenino

E é a minha namorada… vai e vem como uma patativa, de repente morre de amor

Tem fala de S e dá a impressão que está entrando por uma nuvem adentro…

Meu Deus, eu queria brincar com ela, fazer comidinha, jogar nai-ou-nentes

Rir e num átimo dar um beijo nela e sair correndo

E ficar de longe espiando-lhe a zanga, meio vexado, meio sem saber o que faça…

A minha namorada é muito culta, sabe aritmética, geografia, história, contraponto

 E se eu lhe perguntar qual a cor mais bonita ela não dirá que é a roxa porém brique.

Ela faz coleção de cactos, acorda cedo vai para o trabalho

E nunca se esquece que é a menininha do poeta.

(…)

 É doce! gosta muito de mim e sabe dizer sem lágrimas:

 Vou sentir tantas saudades quando você for…

É uma nossa senhorazinha, é uma cigana, é uma coisa

Que me faz chorar na rua, dançar no quarto, ter vontade de me matar e de ser presidente da república.

É boba, ela! tudo faz, tudo sabe, é linda, ó anjo de Domremy!

Dêem-lhe uma espada, constrói um reino ; dêem-lhe uma agulha, faz um crochê

Dêem-lhe um teclado, faz uma aurora, dêem-lhe razão, faz uma briga…!

E do pobre ser que Deus lhe deu, eu, filho pródigo, poeta cheio de erros

A menina que comia chuva

Tenho saudades do que é breve

e vai para além dos barcos.

Esvai-se com a alvorada.

 

Da menina que se perdia no tempo,

andando sob a chuva,

para sentir-lhe o gosto na boca

e tinha a ilusão de um dia comer um pedaço de nuvem e de uma estrela.

 

Saudades daquela menina:

amante das ruas, andarilha das tardes.

Que corria de bicicleta

Só para sentir o vento nas faces

A minha menina.

Eu mesma.