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Tempo de Colheita

Embora nós por aqui comemoremos a Páscoa, o que soa estranho pois nao sincroniza com as estações no hemisfério Sul, estamos na verdade no inicio do Outono, a época da colheita. É a época onde os frutos que arduamente trabalhamos para ver florescer poderão ser colhidos e guardados, é o tempo de se preparar para o inverno, tempo de introspecção, de olhar para  dentro de si mesmo.

É tempo de verificarmos quais foram os frutos que poderão ser guardados, quais não renderam, quais valem a pena ser replantados na próxima primavera. É um tempo de avaliação, de colocar na balança nosso trabalho de um ano todo. È o tempo de guardar as sementes para o próximo plantio. É tempo de banimento também, o que rendeu frutos nocivos deve ser eliminado. É o tempo de limpeza.

Pérsefone voltará para as profundezas , retornará para seu amado Hades. É tempo de alguns fios serem cortados. É o tempo também de desfrutar do que plantamos. Que a colheita seja farta para todos !!

 

 

 

Hanami

O significado da flor da cerejeira (Sakura), considerada a flor-símbolo do Japão provém de lendas e crenças. Sakura é uma modificação do nome sakuya, proveniente da princesa Kono-hana-sakuya-hime, a qual os japoneses veneravam no topo do Monte Fuji. Acredita-se que a princesa tenha caído dos céus sobre uma cerejeira.  A cerejeira também era associada ao samurai cuja vida era tão efêmera quanto à da flor.

Hanami é o festival  das cerejeiras. Onde se comemora sua floração, onde se lembra sobre a efemeridade de tudo, momentos,  pessoas, ate mesmo a brevidade da vida. As flores são o símbolo da impermanência.

As cerejeiras simplesmente caem. Confiantes no momento de renascer um dia.Suas pétalas, seu perfume delicado, viajam com os ventos, sem medo. As flores sabem que este mundo é impermanemte. É como o reflexo da lua na água. Tudo um dia será devastado pelos ventos da mudança.

A lição das flores de cerejeiras é mostrar que  temos  o presente, nada além dele. As flores não empalidecem, nem murcham antes do tempo, por medo de que um dia irão perecer.  O apego traz sofrimento.

A humanidade não aprendeu ainda a  lidar com a impermanencia. Temos necessidade de viver no passado, ou no futuro, precisamos possuir  pessoas, momentos precisam ser eternos e imutáveis para sentirmo-nos seguros. A verdade é que não  podemos possuir o passado, nem futuro, nem pessoas, e sofremos pelo que não podemos reter em nossas vidas.

Então comecei a refletir sobre tudo isso, desnudar minha alma de suas mascaras, para entender de que forma e  porque  o apego traz sofrimento em minha vida. Quais são as situações, pessoas, sem as quais eu acredito não poder ficar. Porque o “possuir” é uma ilusão, no fundo todos  sabemos disto e esta é a razão de todo sofrimento.  Ainda que trancafiado no subconsciente, existe o medo de perda, ainda que não o admitamos para ninguém.

Já sofri por medo de perder pessoas, medo de sair de uma situação confortável, ate mesmo por medo do desconhecido, me apeguei, mais de uma vez, a  pessoas que me fizeram muito infeliz. E por quê?

O apego nos faz cegos, nos traz a dor, faz com que vivamos num mundo ilusório. Ao passo que, o desapego nos conduz a plenitude da vida, nos leva a campos onde a liberdade cavalga soberana, infinita. Nossas almas são como flores tenras à mercê dos ventos do Destino. E é somente quando nos despimos de tudo, é que nossa alma pode voar com toda sua graça. Neste estado de nudez espiritual descerraremos nossos olhos e poderemos ver o Divino que permeia todas as coisas.

Hoje eu convidei minha alma para caminhar sob o sol sem suas máscaras, a fazer do desapego uma prática diária. Entregar meus dias com  confiança nas mãos do Criador, nada pode me se tirado, porque nada me pertence. Escolho a estrada que irei trilhar, caminho por ela, mas ela não me pertence. O que impede você de fazer o mesmo?

Lembremo-nos da impermanência todos os dias, para nos auxiliar a um despertar de  uma vida mais lúcida e feliz.

Como água para chocolate

“A minha avó tinha uma teoria muito interessante, dizia que embora todos nasçamos com uma caixa de fósforos no nosso interior, não os podemos acender sozinhos, precisamos, como na experiência, de oxigénio e da ajuda de uma vela. Só que neste caso o oxigénio tem de vir, por exemplo, do hálito da pessoa amada; a vela pode ser qualquer tipo de alimento, música, carícia, palavra ou som que faça disparar o detonador e assim acender um dos fósforos. Por momentos sentiremo-nos deslumbrados por uma intensa emoção. Dar-se-á no nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passa o tempo, até vir uma nova explosão que o reavive. Cada pessoa tem de descobrir quais são os seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se dá quando um deles se acende é que alimenta a alma de energia. Por outras palavras, esta combustão é o seu alimento. Se uma pessoa não descobre a tempo quais são os seus próprios detonadores, a caixa de fósforos fica úmida e já não poderemos acender um único fósforo.
Se isso chegar a acontecer a alma foge do nosso corpo, caminha errante pelas trevas mais profundas procurando em vão encontrar alimento sozinha, não sabendo que o corpo que deixou inerte, cheio de frio, é o único que poderia dar-lho.”

Há muitas maneiras de pôr uma caixa de fósforos úmida a secar, mas pode ter a certeza de que tem solução.
Tita deixou que algumas lágrimas deslizassem pelo seu rosto. Com doçura John secou-lhas com o seu lenço.
– É claro que também é preciso ter o cuidado de ir acen­dendo os fósforos um a um. Porque se por uma emoção muito forte se acendem todos de uma vez produz-se um brilho tão forte que ilumina para além do que podemos ver normalmente e então aparece aos nossos olhos um túnel esplendoroso que nos mostra o caminho que esquecemos no momento de nascer e que nos chama a reencontrar a nossa origem divina perdida.

A menina que comia chuva

Tenho saudades do que é breve

e vai para além dos barcos.

Esvai-se com a alvorada.

 

Da menina que se perdia no tempo,

andando sob a chuva,

para sentir-lhe o gosto na boca

e tinha a ilusão de um dia comer um pedaço de nuvem e de uma estrela.

 

Saudades daquela menina:

amante das ruas, andarilha das tardes.

Que corria de bicicleta

Só para sentir o vento nas faces

A minha menina.

Eu mesma.