poesia

Praieira

Estou extasiada com esta poesia, como boa filha de Iemanjá, está poesia descreve minha alma de uma maneira tão completa.

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quando-eu-morrer-voltarei

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poesia, sobre a vida

Sobre ouriços e solidão

das verdades doídas da vida

voce veio sozinho,

voce vai partir sozinho

neste meio tempo entre chegar e partir

embora rodeado de gente

voce estará quase sempre por sua conta.

voce só percebe isto quando dá merda,

as gentes-miragens-amigonas despararecem

e voce está sozinho no seu quarto.

isto te faz forte

as vezes amargo

e com certeza esperto

pra nao cair tao facilmente no conto da parceria, trabalho em grupo e qualquer outro engodo que tentem te enfiar.

Os ouriços sao criaturas marinhas e solitárias

precisam dos seus espinhos para se proteger

mas há quem consiga segura-los na mão,

Poucos percebem a delicadeza por debaixo do exoesqueleto

As almas comuns não veem mais que espinhos.

Mas , nós ouriços, pedimos veementemente

Não finjam interesse nos nossos espinhos,

Não finjam se importar se eles incomodam

Não nos tirem do mar para nos observar morrer lentamente.

ouriço.jpg

 

feminismo, mulheres, poesia

La Guerrillera

Maria, foi estuprada as 4 A.M,

enquanto esperava na fila do posto,

para conseguir uma senha para sua filha passar na consulta com o pediatra.

Maria, foi morta e seu corpo dado de comer aos cães

Pois seu namorado não queria que ela tivesse um filho dele.

Maria, foi espancada diversas vezes por seu marido

Por razões diversas e sem nenhuma razão.

Maria de 12 anos, foi escolhida pelo traficante do morro para ser sua “mulher”,

Ela nunca mais foi a escola e só foi libertada aos 18 anos,

Quando ele morreu num tiroteio.

Maria de 7 anos, foi vendida pelo pai na estrada,

Ninguém nunca mais soube dela.

Maria, estava num onibus , voltando do trabalho,

Quando ejacularam no seu ombro.

Maria estava no metro, indo para escola

Quando passaram a mão no seu corpo sem sua permissão.

Maria foi estuprada por 30 homens,

Quando foi a uma festa com amigas, eles filmaram tudo.

Maria pediu o divórico,

O marido assassinou os filhos e depois ela.

Maria teve o rosto desfigurado por acido

Pois seu ex não aceitou o fim do relacionamento.

Maria foi abusada sexualmente por seu tio desde os 6 anos de idade,

Sua irmã desde os 4.

Maria foi estuprada quando estava no hospital,

Ela estava em trabalho de parto para seu primeiro filho.

Maria foi trancada em casa por seu marido,

Ele não queria que ela trabalhasse.

Maria foi proibida de ter conta no Facebook, de ver amigas, de ver familia,

Depois foi espancada e morta.

Maria morreu de hemorragia, sozinha no seu pequeno quarto,

Após um aborto mal feito, ilegal.

Maria veio da Bolívia para ter um futuro melhor,

Hoje é escrava, trancada numa fabrica clandestina.

Maria apanha todo dia, morre todo dia, é estuprada todo dia.

No Brasil  cheio de Marias

A cada meia hora  uma Maria é assassinada por um homem.

A cada 11 minutos uma Maria é estuprada.

O sangue de Maria ali derramado, ignorado.

Maria guarda sofrimentos e lagrimas dentro de si.

Só Maria escuta o grito de outra Maria.

Ah, Maria que mundo melhor imaginei para ti, para nós.

Mas se no nosso peito de Maria cabe tanta dor

Também cabe luta.

E Maria, incansável guerrilheira,

Divinal curandeira de almas,

Se apoia no braço de outra Maria,

Um exército de Marias, caminhando na escuridão,

Derrubando muralhas, rompendo o metal e a velocidade da luz.

A Maria do futuro que não vai ser salva, mas que salvará.

mujerescreando
Mujeres Creando, grupo feminista boliviano.

 

 

 

poesia

Blur

Cega a atmosfera uma triste melodia

Que relembra o sol que não veio.

O cheiro de roupa umida no varal

Um ar tão liquido que pega na garganta

Onde teu nome vive aprisionado.

Quando virás?

Quando o dia esta cinza e branco

Uso a cor dos teus olhos para desenhar.

Abro a janela para um imposível vento

Mas ele vira a esquina em outra direção.

No jardim, a noite, senhora caprichosa

Faz sua entrada silente.

A Dama Negra não trouxe o vento,

Nem a chuva, nem você.

Me deito no manto de estrelas

Meu mudno impermeável às palavras

Onde a escuridão cantarola canções de ninar.

A Noite sussurra que amanhã

Voce não virá também,

Nem depois de amanhã,

Nem talvez…

A tua chegada é como um sonho borrado

Pela chuva e pelos dias quentes.

 

michael peen
Photo by Michael Penn

 

poesia

Nocturne

Eu cuido do mundo todo

É por isso que as vezes acordo em sobressalto

E não durmo até que a manhã chegue

São angustias, paixões, medos, alegrias

Todo os sentimentos do mundo

Aqui dentro, as vezes quase fogem pela garganta

As vezes me arranham por dentro.

Não lembro quando comecei a cuidar do mundo

Creio que foi antes do Tempo existir

Eu presenciei o primeiro amor florir

Eu me lembro.

Meus pés já não tem mais a mesma agilidade

Eu fico aqui, sentada, observando

Bailar o macabro, o divino, o nascimento, a morte

Eu cuido de todos eles

Dos que brotam, dos que apodrecem,

Dos que dilaceram a alma de paixão

Dos malditos, da mãe que perdeu o filho,

Da flor esmagada pela rotina,

Do que ganhou na loteria,

Do bebado e da bailarina

Da que não crê e dos demonios

Do animal morto na estrada

Da água turva, da neve virginal

Dos loucos e dos devotos

Para cada um escrevo um sortilégio

Em forma de poesia

Eu cuido do mundo todo

E por isto minhas noites são insones.

 

poesia

Canção Praieira para Saturno

Portugues/English

Ainda guardo comigo o retrato de nossas conversas

Madrugadas infinitas, onde o sol quase não ousava nascer.

Tua boca cantava o que ecoava por minha alma

Você adivinhava os mais secretos jardins do meu pensamento

Cada folha, cada folha, cada gota de chuva.

E quando sinto tua falta

Desenho tua boca no ar com meus dedos

E imagino ela soprando cantigas e poesias,

E quando o silencio teu se faz

Beijo o canto do teu sorriso.

Amo esta curva que ele faz.

Aquele tempo alado e perfeito

Tatuado por todo meu ser

É minha melhor lembrança de ti.

As areias que tudo levam, levaram muito

Só este amor ainda caminha comigo.

Me acaricia todas manhãs,

Me nina todas as noites,

Me acalenta nas madrugadas insones.

Eu , narcísa, não recordo de ver

mais bela imagem que meu reflexo

nos olhos teus.

De modo que, para me ver

Preciso mirar-te.

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I still keep with me the portrait of our chats

Infinite dawns, where the Sun hardly dared to be born

Your mouth sung what echoed into my soul

You guessed the most secret gardens of my thoughts

Each leaf, each flower, each drop of rain.

And when I longing you

I draw your mouth in the air with my fingers

And I imagine it blowing songs and poetry,

And when your silence is made

I kiss the corner of your smile.

I love this curve.

That winged and perfect time

That is tattooed on my whole being

It’s my best memory of you.

The sands that take everything, took a lot

Only this love still walks with me.

It caresses me every morning,

It lull me every night,

It pacifies me in the sleepless downs.

I, Nascissa, do not remember to see

Most gorgeous image, that my reflection

In your eyes.

Thus, to see myself

I need to gaze at you.

 

 

 

 

poesia

Miro o Universo que me mira

Portugues/English

Existem noites que são como vitrais

Um amontoado de pedaçinhos de vidros coloridos

Um quebra cabeça de peças que nem sempre se encaixam

Um mar, onde imagens do subconsciente flutuam

Emergem fotos aqui e acolá,

Misturadas à paisagem do dia anterior.

Um baile de miragens

Onde bailarinos de outros mundos saltam

Trazendo consigo suas mensagens

E então, as ondas batem com força contra as rochas

Formando imagens caleidoscópicas

E, quando despertamos o silencio é tão urgente.

No silencio colhemos todas estas peças que chegaram até a areia

Até que elas façam algum sentido.

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Some nights are like stained glass

A heap of colorful glass pieces

A puzzle of pieces that do not always fit

A sea, where images of the subconscious float

Pictures emerge here and there

Mixed to the  landscape from the day before

A dance of mirages

Where dancers from other worlds jump

Bringing their messages to you.

And then, the waves hit hard against the rocks,

Forming kaleidoscopic images

And when we wake up, the silence is so urgent.

In the silence we harvest all these pieces that reached the sand

Until they make some sense.

 

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Andre Chénier, Bregenz, Austria